Mostrando postagens com marcador reflexão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador reflexão. Mostrar todas as postagens

O Paradoxo - Augusto de Lima

O PARADOXO
Quem pôde jamais dizer-me
com certeza donde vim,
se sou simplesmente um verme,
ou se Deus está em mim?

Mistério! a vida eu a sinto
como um fluido incandescente
nas veias; porém não minto
dizendo que a acho excelente...

Mata-me o tédio do mundo
e nisto encontro prazer.
Como Hamlet meditabundo,
agito o “ser e não ser”.

Sou uma antítese viva,
talvez um sonho do caos,
extrato que Javé ou Silva
fez dos gênios bons e maus.

Contrastes me não surpreendem:
fascina-me o Bem; o Mal
tem atrações que me prendem
dentro de um fosso fatal.

A metafísica nunca
fez cousas tão encontradas:
sou rico, e habito a espelunca,
choro, dando gargalhadas.

Às vezes, até duvido
se sou, e me palpo então,
e no vivo peito ardido
sinto da Morte a canção.

É que ardem no paraíso
infernos, engana o amor,
o lábio mente e o sorriso
é uma paródia da dor.

Augusto de Lima


Mundo Interior - Augusto de Lima

MUNDO INTERIOR
Quem me vê meditabundo
e de olhos fechados, brada:
“Eis uma alma encarcerada,
indiferente a este mundo.”

Mal sabe a turba inexperta
que, por mais que se retraia
de nossa matéria a raia,
mais a razão se liberta

Pois, da abstração da Utopia
surge não raro um compasso;
é um sonho infinito o espaço,
mas real a Astronomia.

Se sondo, investigo, estudo,
buscando a ciência que almejo,
fito os astros,- nada vejo,
cerro os olhos, - vejo tudo.

Nas horas em que medito,
(quão breves são essas horas!)
em minha alma abrem-se auroras
com portas para o infinito.

Nesse mundo de esplendores,
com os sentidos devoro
o acorde, prisma sonoro,
o prisma, acorde das cores.

E para que mais me encante,
o pensamento divino
torna-me o olfato mais fino
e a vista mais penetrante.

Quanto à minha alma, entretém-na
a harmonia eternamente;
porque o silêncio inclemente
só na matéria é que reina.

Augusto de Lima


Pássaros - Machado de Assis

Pássaros

OLHA COMO, cortando os leves ares,
Passam do vale ao monte as andorinhas;
Vão pousar na verdura dos palmares,
Que, à tarde, cobre transparente véu;
Voam também como essas avezinhas
Meus sombrios, meus tristes pensamentos;
Zombam da fúria dos contrários ventos,
Fogem da terra, acercam-se do céu.

Porque o céu é também aquela estância
Onde respira a doce criatura,
Filha de nosso amor, sonho da infância,
Pensamento dos dias juvenis.
Lá, como esquiva flor, formosa e pura,
Vives tu escondida entre a folhagem,
Ó rainha do ermo, ó fresca imagem
Dos meus sonhos de amor calmo e feliz!

Vão para aquela estância enamorados,
Os pensamentos de minh'alma ansiosa;
Vão contar-lhe os meus dias mal gozados
E estas noites de lágrimas e dor.

Na tua fronte pousarão, mimosa,
Como as aves no cimo da palmeira,
Dizendo aos ecos a canção primeira
De um livro escrito pela mão do amor.

Dirão também como conservo ainda
No fundo de minh'alma essa lembrança
De tua imagem vaporosa e linda,
Único alento que me prende aqui
E dirão mais que estrelas de esperança
Enchem a escuridão das noites minhas
Como sobem ao monte as andorinhas
Meus pensamentos voam para ti.

Machado de Assis


Os ciganos - Raimundo Correia

Os ciganos

A Jose Veríssimo


Um adia, ao fim de incomoda jornada,
De uma longa jornada por mim feita,
Com perigos não menos do que danos,
Ao crepúsculo vi, na volta estreita
De sinuosa estrada,
Três farrapados, míseros ciganos.

Um ─ de viola amiga, unida ao peito,
Dedilhando as corda, indolente,
Tirava brandos sons... Que ar satisfeito!
No seu moreno rosto, que o poente
De rubra e vigorosa cor tingia!

Outro ─ aspirando o seu cachimbo, ocioso,
Nas aspirais do fumo azul deixava
Pascerem-se-lhe os olhos, descuidoso...
E tinha, entre farrapos, o ar tranqüilo,
O ar de quem de mais nada precisava,
O de quem para bastava aquilo.

Dormia o ultimo à sombra da ramagem,
E sobre a oscilar ─ quadro risonho! ─
Pendia um par de címbalos que a aragem
Ressonava ao passar, leve e fugace...
Também a doce aragem de algum sonho
Pelo seu coração talvez passasse...

Os três ciganos míseros... Que digo?
Míseros somos nós; mísero o louco,
Como eu ou tu, amigo,
Que, tendo em muito o que eles têm em pouco,
Em pós de um sonho vão em vão se cansa.
Qual! nem esse apetite imoderado
De gloria e de fortuna;
Nem viver da saudade e da esperança;
Nem rever o passado,
Ou prever o futuro a alma conforta.

Antes pela existência andar à tuna:
Sono, viola e fumo, e ao Deus dará...
O que passou, já lá se foi ─ que importa? ─
E o que há de vir, por sua vez virá!
Para a dor de viver, que nos devasta
E que o beijo nenhum de amor consola,
Os ciganos fizeram-me sentir,
Que, das três coisas, uma só nos basta:
Tocar viola, fumar cachimbo, ou dormir.

Raimundo Correia

frase de Antoine de Saint-Exupéry

Os homens cultivam cinco mil rosas num mesmo jardim e não encontram o que procuram. E, no entanto, o que eles buscam poderia ser achado numa só rosa. 
(Antoine de Saint-Exupéry)

Antonio Rangel Bandeira - Visibilidade Zero

Visibilidade Zero

Confesso que estou cansado.
Sobretudo, de mim mesmo.
Se o telefone tocar digam
Que não estou. Quero ficar
Sozinho. Nem quero saber
O que se passa no mundo.
Até a fé na vida perdi.
Não me suporto mais.
Este conflito já dura

Demais entre eu e
Mim mesmo. Vejo
Que vivi uma vida de sonho
Num mundo de cães.
E se me observo melhor,
Percebo que estou latindo.

(Antonio Rangel Bandeira)

Quem sou eu? - Luís da Gama

Quem sou eu?

Amo o pobre, deixo o rico,
Vivo como o Tico-tico;
Não me envolvo em torvelinho,
Vivo só no meu cantinho:
Da grandeza sempre longe
Como vive o pobre monge.
Tenho mui poucos amigos,
Porém bons, que são antigos,
Fujo sempre à hipocrisia,
À sandice, à fidalguia;
Das manadas de Barões?
Anjo Bento, antes trovões.
Faço versos, não sou vate,
Digo muito disparate,
Mas só rendo obediência
À virtude, à inteligência:
Eis aqui o Getulino
Que no plectro anda mofino.
Sei que é louco e que é pateta
Quem se mete a ser poeta;
Que no século das luzes,
Os birbantes mais lapuzes,
Compram negros e comendas,
Têm brasões, não — das Calendas,
E, com tretas e com furtos
Vão subindo a passos curtos;
Fazem grossa pepineira,
Só pela arte do Vieira,
E com jeito e proteções,
Galgam altas posições!
Mas eu sempre vigiando
Nessa súcia vou malhando
De tratante, bem ou mal,
Com semblante festival.
Dou de rijo no pedante
De pílulas fabricante,
Que blasona arte divina,
Com sulfatos de quinina,
Trabuzanas, xaropadas,
E mil outras patacoadas,
Que, sem pingo de rubor,
Diz a todos, que é DOUTOR!
Não tolero o magistrado,
Que do brio descuidado,
Vende a lei, trai a justiça,
— Faz a todos injustiça —
Com rigor deprime o pobre
Presta abrigo ao rico, ao nobre,
E só acha horrendo crime
No mendigo, que deprime.
— Neste dou com dupla força.
Té que a manha perca ou torça.
Fujo às léguas do lojista,
Do beato e do sacrista —
Crocodilos disfarçados,
Que se fazem muito honrados
Mas que, tendo ocasião,
São mais feros que o Leão.
Fujo ao cego lisonjeiro,
Que, qual ramo de salgueiro,
Maleável, sem firmeza,
Vive à lei da natureza;
Que, conforme sopra o vento,
Dá mil voltas num momento.
O que sou, e como penso,
Aqui vai com todo o senso,
Posto que já veja irados
Muitos lorpas enfunados,
Vomitando maldições,
Contra as minhas reflexões.
Eu bem sei que sou qual Grilo,
De maçante e mau estilo;
E que os homens poderosos
Desta arenga receosos
Hão de chamar-me tarelo,
Bode, negro, Mongibelo;
Porém eu que não me abalo,
Vou tangendo o meu badalo
Com repique impertinente,
Pondo a trote muita gente.
Se negro sou, ou sou bode
Pouco importa. O que isto pode?
Bodes há de toda a casta,
Pois que a espécie é muito vasta...
Há cinzentos, há rajados,
Baios, pampas e malhados,
Bodes negros, bodes brancos,
E, sejamos todos francos,
Uns plebeus, e outros nobres,
Bodes ricos, bodes pobres,
Bodes sábios, importantes,
E também alguns tratantes...
Aqui, nesta boa terra,
Marram todos, tudo berra;
Nobres Condes e Duquesas,
Ricas Damas e Marquesas
Deputados, senadores,
Gentis-homens, veadores;
Belas Damas emproadas,
De nobreza empantufadas;
Repimpados principotes,
Orgulhosos fidalgotes,
Frades, Bispos, Cardeais,
Fanfarrões imperiais,
Gentes pobres, nobres gentes
Em todos há meus parentes.
Entre a brava militança —
Fulge e brilha alta bodança;
Guardas, Cabos, Furriéis,
Brigadeiros, Coronéis,
Destemidos Marechais,
Rutilantes Generais,
Capitães-de-mar-e-guerra,
— Tudo marra, tudo berra —
Na suprema eternidade,
Onde habita a Divindade,
Bodes há santificados,
Que por nós são adorados.
Entre o coro dos Anjinhos
Também há muitos bodinhos. —
O amante de Siringa
Tinha pêlo e má catinga;
O deus Mendes, pelas costas,
Na cabeça tinha pontas;
Jove quando foi menino,
Chupitou leite caprino;
E, segundo o antigo mito,
Também Fauno foi cabrito.
Nos domínios de Plutão,
Guarda um bode o Alcorão;
Nos lundus e nas modinhas
São cantadas as bodinhas:
Pois se todos têm rabicho,
Para que tanto capricho?
Haja paz, haja alegria,
Folgue e brinque a bodaria;
Cesse pois a matinada,
Porque tudo é bodarrada! —

Luís da Gama

Carta de Luís da Gama a seu filho - Luís da Gama

Carta de Luís da Gama a seu filho
por Luís da Gama

Meu filho, Dize a tua mãe que a ela cabe o rigoroso dever de conservar-se honesta e honrada; que não se atemorize da extrema pobreza que lego-lhe, porque a miséria é o mais brilhante apanágio da virtude.

Tu evitas a amizade e as relações dos grandes homens; eles são como o oceano que aproxima-se das costas para corroer os penedos.

Sê republicano, como o foi o Homem-Cristo. Faze-te artista; crê, porém, que o estudo é o melhor entretenimento, e o livro o melhor amigo.

Faze-te o apóstolo do ensino, desde já. Combate com ardor o trono, a indigência e a ignorância. Trabalha por ti e com esforço inquebrantável para que este país em que nascemos, sem rei e sem escravos, se chame Estados Unidos do Brasil.

Sê cristão e filósofo; crê unicamente na autoridade da razão, e não te alies jamais a seita alguma religiosa. Deus revela-se tão somente na razão do homem, não existe em Igreja alguma do mundo.

Há dois livros cuja leitura recomendo-te: a Bíblia Sagrada e a Vida de Jesus por Ernesto Renan.

Trabalha, e sê perseverante.

Lembra-te que escrevi estas linhas em momento supremo, sob a ameaça de assassinato. Tem compaixão de teus inimigos, como eu compadeço-me da sorte dos meus.

Teu pai Luís Gama.

fonte: http://pt.wikisource.org/wiki/Carta_de_Lu%C3%ADs_Gama_a_seu_filho

Damário Dacruz - Caixa - preta

Caixa - preta

Sou um homem.
Portanto,
mais que palavra.

Não pronuncio
o sentimento
apenas como palavra.

O que foi dito
ao entardecer
não se confirma
na madrugada.
O que foi visto
no sonho
não se confronta
com a realidade.

Sou um homem.
Portanto,
uma surpresa.

Damário Dacruz

Luís da Gama - O Grande Curador do Mal das Vinhas

O Grande Curador do Mal das Vinhas
por Luís da Gama

Cá do antro negregado em que eu habito,
Envolto na pobreza que me oprime;
Da fatal ignorância ao duro peso,
Qual réu que comete horrendo crime.

Ao mundo não lembrado, como a sombra
De ignorado Pastor em ermos vales;
Sofrendo da miséria atroz reveses,
Do meu fado curtindo acerbos males:

Prostrado à sonolência que domina
A turba dos mortais assim rendidos,
De repente desperto ao som medonho
De brados estridentes — alaridos!

Impávido, correndo, me encaminho,
Em busca do sucesso não cuidado,
Que, os ares atroando, se anuncia,
Qual fero Adamastor, bramindo irado!

A trancos e barrancos, tropeçando,
De súbito deparo fronte a fronte,
— Não de susto falece comovido,
Com feio, desgrenhado e sujo Bronte!

Era hirsuta a melena, esfiapada,
Que nos ombros vergados se esparzia;
A boca retorcida, os dentes verdes,
Rotunda era a cabeça, mas vazia.

Trajava uma casaca que invejara
Um judas, ou magriço gafanhoto,
Presente que lhe dera, em despedida,
O seu velho patrão, que era piloto.

Com denodo, montava, um grã tonel,
Tinha a frente, de parras, enfeitada;
Empunhando na destra uma seringa,
E na sestra uma vinha, já curada.

Diante do herói vinham, saltando,
Uma chusma de Bacos, de cornetas;
Também vinha Príapo, enfurecido,
Entre velhas zanagas, e cambetas!

D’espanto dominado, lhe pergunto:
Quem és tu, ó mortal, que assim caminhas?
Responde-me o colosso, insano e forte:
“O grande curador do mal das vinhas!!”

E soprando-me a testa, d’improviso,
Por pouco me não deixa sem juízo!
Aos ares se elevou, empavesado,
As abas da casaca abrindo ousado;
E, logo que da terra se apartou,
Sobre as nossas cabeças espalhou:
Um chuveiro de anúncios, em gazetas,
Retumbantes artigos, grossas petas;
A caparrosa, a galha, a t’rebentina,
Essência de tabaco, e de quinina;
Pontinhas de charutos já fumados,
Ratos mortos, em vinho conservados;
Pomposos elogios, em jornais,
Sementes p’ra o fabrico de animais;
Um tratado das coisas reunidas,
E mais outras cousitas esquecidas!
Nem César, Bonaparte, nem Mavorte,
E outros em quem poder não teve a morte,
Igualam, no saber, o pregoeiro,
Que das vinhas se aclama — curandeiro.
Por ele se esqueçam os humanos
De Assírios, Persas, Gregos e Romanos
— Que nas grimpas da glória repimpado
Um abraço vai dar no sol dourado.

Vinícius de Moraes - Ai, quem me dera

Ai, quem me dera

Ai quem me dera, terminasse a espera
E retornasse o canto simples e sem fim...
E ouvindo o canto se chorasse tanto
Que do mundo o pranto se estancasse enfim

Ai quem me dera percorrer estrelas 
Ter nascido anjo e ver brotar a flor
Ai quem me dera uma manhã feliz
Ai quem me dera uma estação de amor

Ah! Se as pessoas se tornassem boas
E cantassem loas e tivessem paz
E pelas ruas se abraçassem nuas 
E duas a duas fossem ser casais

Ai quem me dera ao som de madrigais
Ver todo mundo para sempre afins
E a liberdade nunca ser demais
E não haver mais solidão ruim

Ai quem me dera ouvir o nunca mais 
Dizer que a vida vai ser sempre assim
E finda a espera ouvir na primavera
Alguem chamar por mim...

Vinícius de Moraes

Ary dos Santos - Retrato do Herói

Retrato do Herói

Herói é quem num muro branco inscreve
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
e morre devagar de morte certa.

Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome fechado o corpo ao breve
instante em que a denúncia fica alerta.

Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo nem mártir nem soldado
Mas apenas por último indefeso.

Homem é quem tombando apavorado
dá o sangue ao futuro e fica ileso
pois lutando apagado morre aceso.

Ary dos Santos

O mal - Luís Delfino

O mal 

Eu não imploro nunca aos deuses superiores:
No meu orgulho sei que rirão de piedade;
Eles conhecem bem a pobre humanidade,
E a jaula onde está preso o cão de nossas dores.

Ninguém sai de si mesmo, e sai dos seus horrores,
Somos isto: não há mudar na eternidade:
Há para nós em tudo uma cumplicidade;
Levas contigo o mal sem fim, para onde fores.

O mal, obra que acusa um grande pensamento,
O mal, que prende o céu à terra, o mar ao vento,
O mal, do qual um deus foi exímio escultor;

Que é deus mesmo, — e será? eu dentro em mim pergunto, -
Que encosta o dia à noite, e o pranto ao rir põe junto,
O mal único, o mal, que é todo o mal, — é o amor.


Luís Delfino

Soneto - Juvenal Galeno

Soneto
Quanta lucta, meu Deus, quanta aspereza
Nos caminhos da vida, em toda a parte!
Como a dor fatalmente se reparte
No reino, todos os tres, da natureza.

Do mais pequeno insecto, a mór grandeza;
Em tudo que, o viver térreo comparte;
Do mais ignorante ao de mais arte:
Dos humildes até á realeza.

É que tudo tem alma, evoluindo,
Que parte das maiores profundezas,
As montanhas mais altas attingindo.

E na longa ascensão, quantas surprezas;
Quantas vertigens; que mysterio infindo;
Que immenso labyrintho de incertezas.

Juvenal Galeno

Sá de Miranda - Comigo me desavem

Comigo me desavem

Comigo me desavem,
vejo-m' em grande perigo,
nam posso viver comigo,
nem posso fogir de mim

Antes qu'este mal tevesse,
da outra gente fogia;
agora ja fugiria
de mim, se de mim podesse.
Que cabo espero, ou que fim
deste cuidado que sigo,
pois que trago a mim comigo,
tamanho inimigo de mim?


Sá de Miranda

Poesia - Carlos Drummond de Andrade

Poesia
Gastei uma hora pensando em um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.