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Morte, acaso ou destino - Carlo dos Santos

Morte, acaso ou destino?

E se a vida for acaso, e não uma criação?
E se a morte for acaso, azar ou sorte?
Sorte para o infeliz que nasce pela penumbra da morte
Desde que nasce ao acaso da sorte,
Onde não quis nascer predestinado a morrer.
Que infeliz sorte a de nascer para a morte.
Esse que nasce para morrer,
ainda é julgado a perecer depois da morte.
Existe então pior sorte?
A de não pedir pra nascer,
E ainda ser condenado a morrer eternamente!?

A morte, é azar para o feliz abastado de sorte.
Que teme a morte, temendo perder a tao grande alegria,
Que é a de viver uma vida boa, cheia de prazer e euforia
Esse tem prazer na vida, pois não nasceu marcado de morte.

A morte chega sem avisar
No alvorecer do dia, na calada da noite
Ou ainda na tarde vazia.
Chega também avisando
Aos poucos alguns a veem.
O que virá depois da morte?
Eis o mistério maior da vida!

Carlo dos Santos


A Morte - Olavo Bilac

A Morte

Oh! a jornada negra! A alma se despedaça...
Tremem as mãos... O olhar, molhado e ansioso, espia,
E vê fugir, fugir a ribanceira fria,
Por onde a procissão dos dias mortos passa.

No céu gelado expira o derradeiro dia,
Na última região que o teu olhar devassa!
E só, trevoso e largo, o mar estardalhaça
No indizível horror de uma noite vazia...

Pobre! por que, a sofrer, a leste e a oeste, ao norte
E ao sul, desperdiçaste a força de tua alma?
Tinhas tão perto o Bem, tendo tão perto a Morte!

Paz à tua ambição! paz à tua loucura!
A conquista melhor é a conquista da Calma:
- Conquistaste o país do Sono e da Ventura!

Olavo Bilac



A morte - Cruz e Sousa

A morte

Oh! que doce tristeza e que ternura
No olhar ancioso, afflicto dos que mórrem...
De que ancoras profundas se soccórem
Os que penétram nessa noite escura!

Da vida aos frios véos da sepultura
Vagos momentos tremulos decórrem...
E dos olhos as lagrimas escórrem
Como pharóes da humana Desventura.

Descem então aos golphos congelados
Os que na terra vagam suspirando,
Com os velhos corações tantalisados.

Tudo negro e sinistro vae rolando
Bárathro a baixo, aos echos soluçados
Do vendaval da Morte ondeando, uivando...

Cruz e Sousa


Morte - Francisco Joaquim Bingre

Morte

Num imenso salão, alto e rotundo,
De caveiras iguais, ossos sem dono,
Perpétua habitação de eterno sono
Que tem por tecto o Céu, por base o mundo:

Bem no meio, em silêncio o mais profundo,
Se levanta da Morte o fatal trono:
Ceptros sem rei, arados sem colono,
São os degraus do sólio furibundo.

Lanças, arneses pelo chão, quebrados,
Murchas grinaldas, báculos partidos,
Liras de vates, pastoris cajados,

Algemas, ferros e brasões luzidos,
No terrível salão são misturados,
No palácio da Morte confundidos.

Francisco Joaquim Bingre

Para defender a pátria - Frei Caneca

Para defender a pátria

Para defender a pátria
Menino homem se faz,
Em dando a vida por ela;
Morrendo, não peno mais.

De que me serve viver
Entre suspiros e ais?
Se vivo, vivo penando;
Morrendo, não peno mais.

Inda que eu queira, não posso
Existir entre os mortais.
A morte serve de alívio;
Morrendo, não peno mais.

Oh! morte, por que não vens
Findar meus dias fatais?
Se vivo, vivo penando;
Morrendo, não peno mais.

Frei Caneca

Charles Bukowski - Confissão

Confissão

esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na cama
sinto muita pena de
minha mulher
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo talvez
sacudi-lo de novo:
hank!
e hank não vai responder
não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.
no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir todas as noites
a seu lado
e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas
e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora ser ditas:
eu te
amo.

Charles Bukowski 
(Tradução: Jorge Wanderley)

Epitáfio - Castro Alves

Epitáfio
Para um túmulo de mãe.

Como o orvalho das ramas do salgueiro
Resvala sobre a lápide do trilho,
Assim gotejam lágrimas de filho,
O Minha Mãe! sobre o sepulcro teu.
Mas como o sol nascente a gota enxuga
Que a noite derramou sobre os escolhos...
O anjo da Crença nos enxuga os olhos
E faz do pranto uma oração... no céu!

Castro Alves

Luís Vaz de Camões - A Morte, que da vida o nó desata

A Morte, que da vida o nó desata

A Morte, que da vida o nó desata,
os nós, que dá o Amor, cortar quisera
na Ausência, que é contra ele espada fera,
e co Tempo, que tudo desbarata.

Duas contrárias, que ũa a outra mata,
a Morte contra o Amor ajunta e altera:
ũa é Razão contra a Fortuna austera,
outra, contra a Razão, Fortuna ingrata.

Mas mostre a sua imperial potência
a Morte, em apartar dum corpo a alma.
Duas num corpo o Amor ajunte e una;

por que assi leve triunfante a palma
Amor da Morte, apesar da Ausência,
do Tempo, da Razão e da Fortuna.


Luís de Camões

O Que Eu Sou - Teixeira de Pascoaes

O Que Eu Sou

Nocturna e dubia luz
Meu sêr esboça e tudo quanto existe...
Sou, num alto de monte, negra cruz,
Onde bate o luar em noite triste...

Sou o espirito triste que murmura
Neste silencio lúgubre das Cousas...
Eu é que sou o Espectro, a Sombra escura
De falecidas formas mentirosas.

E tu, Sombra infantil do meu Amôr,
És o Sêr vivo, o Sêr Espiritual,
A Presença radiosa...
Eu sou a Dôr,
Sou a tragica Ausencia glacial...

Pois tu vives, em mim, a vida nova,
E eu já não vivo em ti...
Mas quem morreu?
Fôste tu que baixaste á fria cova?
Oh, não! Fui eu! Fui eu!

Horrivel cataclismo e negra sorte!
Tu fôste um mundo ideal que se desfez
E onde sonhei viver apoz a morte!
Vendo teus lindos olhos, quanta vez,
Dizia para mim: eis o logar
Da minha espiritual, futura imagem...
E viverei á luz daquele olhar,
Divino sol de mistica Paisagem.

Era minha ambição primordial
Legar-lhe a minha imagem de saudade;
Mas um vento cruel de temporal,
Vento de eternidade,
Arrebatou meu sonho! E fugitiva
Deste mundo se fez minha alegria;
Mais morta do que viva,
Partiu comtigo, Amôr, á luz do dia
Que doirou de tristêsa o teu caixão...
Partiu comtigo, ao pé de ti murmura;
É maguada voz na solidão,
Dôce alvor de luar na noite escura...
E beija o teu sepulcro pequenino;
Sobre ele vôa e erra,
Porque o teu Sêr amado é já divino
E o teu sepulcro, abrindo-se na terra,
Penetrou-a de luz e santidade...
E para mim a terra é um grande templo
E, dentro dele, a Imagem da Saudade...
E reso de joelhos, e contemplo
Meu triste coração, saudoso altar
Alumiado de sombra, escura luz...
Nele deitado estás como a sonhar,
Meu pequenino e mistico Jesus...
Lagrimas dos meus olhos são as flôres
Que a teus pés eu deponho...
Enfeitam tua Imagem minhas dôres,
E alumia-te, ás noites, o meu sonho.

Todo me dou em sacrificio á tua
Imagem que eu adoro.
Sou branco incenso á triste luz da lua:
Eu sou, em nevoa, as lagrimas que choro...

Teixeira de Pascoaes

Eterna dor - Artur de Azevedo

Eterna Dor

Já te esqueceram todos neste mundo. . .
Só eu, meu doce amor, só eu me lembro,
Daquela escura noite de setembro
Em que da cova te deixei no fundo.

Desde esse dia um látego iracundo
Açoitando-me está, membro por membro.
Por isso que de ti não me deslembro,
Nem com outra te meço ou te confundo.

Quando, entre os brancos mausoléus, perdido,
Vou chorar minha acerba desventura,
Eu tenho a sensação de haver morrido!

E até, meu doce amor, se me afigura,
Ao beijar o teu túmulo esquecido,
Que beijo a minha própria sepultura!

 Artur de Azevedo

Ausencia - Teixeira de Pascoaes

Ausencia

Lúgubre solidão! Ó noite triste!
Como sinto que falta a tua Imagem
A tudo quanto para mim existe!

Tua bemdita e efémera passagem
No mundo, deu ao mundo em que viveste,
Á nossa bôa e maternal Paisagem,

Um espirito novo mais celeste;
Nova Forma a abraçou e nova Côr
Beijou, sorrindo, o seu perfil agreste!

E ei-la agora tão triste e sem verdor!
Depois da tua morte, regressou
Ao seu velhinho estado anterior.

E esta saudosa casa, onde brilhou
Tua voz num instante sempiterno,
Em negra, intima noite se occultou.

Quando chego á janela, vejo o inverno;
E, á luz da lua, as sombras do arvoredo
Lembram as sombras pálidas do Inferno.

Dos recantos escuros, em segredo,
Nascem Visões saudosas, diluidos
Traços da tua Imagem, arremêdo

Que a Sombra faz, em gestos doloridos,
Do teu Vulto de sol a amanhecer...
A Sombra quer mostrar-se aos meus sentidos...

Mas eu que vejo? A luz escurecer;
O imperfeito, o indeciso que, em nós, deixa
A amargura de olhar e de não vêr...

A voz da minha dôr, da minha queixa,
Em vão, por ti, na fria noite clama!
Dir-se-á que o céu e a terra, tudo fecha

Os ouvidos de pedra! Mas quem ama,
Embora no silencio mais profundo,
Grita por seu amor: é voz de chama!

E eu grito! E encontro apenas sobre o mundo,
Para onde quer que eu olhe, aqui, além,
A tua Ausencia tragica! E no fundo

De mim proprio que vejo? Acaso alguem?
Só vejo a tua Ausencia, a Desventura
Que fez da noite a imagem de tua Mãe!

A tua Ausencia é tudo o que murmura,
E mostra a face triste á luz da aurora,
E se espraia na terra em sombra escura...

Quem traz o outomno ao meu jardim agora?
Quem muda em cinza o fogo do meu lar?
E quem soluça em mim? Quem é que chora?

É a tua Ausencia, Amôr, que vem turbar
Esta alegria etérea, nuvem, asa
De Anjo que, ás vezes, passa em nosso olhar!

O Sol é a tua Ausencia que se abrasa,
A Lua é tua Ausencia enfraquecida...
Da tua Ausencia é feita a minha vida
E os meus versos tambem e a minha casa.

Teixeira de Pascoaes

Da carteira de um doido - Vicente de Carvalho

Da carteira de um doido
Numa cova bem funda, em sítio agreste
E solitário, junto
Das severas raízes de um cipreste,
Meu coração deitei como um defunto.

Lá o deixei. Estróina impenitente
Que hoje a prisão de um túmulo encarcera,
Lá jaz, enfim acomodado e ausente,
Apodrecendo em paz à minha espera.

E descansei, por algum tempo ao menos,
Desse incômodo, péssimo aliado,
Bêbado sempre e nunca saciado
Do acre sabor de todos os venenos.

Por longos anos de fragilidade
Aturei-lhe a estroinice de devasso:
Bebedeiras de amor a cada passo,
De quando em quando orgias de bondade...

Sentia como própria a mais pequena
Desgraça alheia; e assim, de quando em quando,
Metia-se em funduras, esbanjando
Uma fortuna em lágrimas de pena.

E quanto a amores, era um vagabundo,
Era um romeiro eterno, escandaloso,
Que ia de porta em porta pelo mundo
Cantando loas e pedindo pouso.

Um mendigo, afinal! Com que despejo,
Com que lamúrias, com que voz aflita
Ia, tentando a esmola de algum beijo,
De boca em boca de mulher bonita.

Como alguns tem o vinho turbulento
Às vezes, outras vezes choraminga,
Tinha ele o amor, digamos – tinha a pinga –
Conforme o rumo com que vinha o vento.

Amando sempre, o amor desabafava
Em ais de mágoa, em gritos de esperança,
Ora arrulhando como pomba mansa,
Ora rugindo como fera brava.

Quantas compridas noites eu, caído
De sono e de canseira no meu leito,
Não o aturei a martelar-me o peito,
Na agitação de um mar enfurecido...

E quanta vez não desejei ser surdo
Quando esse louco, em surtos de eloqüência
Me fazia a estafante confidência
De algum sonho de amor, suave e absurdo!

Como era fácil e exigia apenas
Das mulheres que achava encantadoras
Uma alvura de mármore nas loiras,
Um rosado de jambo nas morenas,

Nunca lhe escasseou terreno azado
E nunca lhe faltou tempo propício
À cultura intensiva do seu vício
- Do seu vício de amar sem ser amado.

Porque amado não foi... E o mais terrível
Dos seus defeitos, como dos meus males
Era esse de transpor montes e vales
Correndo atrás de um bem inacessível...

Como no largo mar uma canoa
Abandonada às fúrias da procela,
Roto o leme, sem rumo, solta a vela,
Vai de onda em onda velejando à toa;

Ele, de desengano em desengano
Como de vaga em vaga sacudido,
Sempre burlado e nunca esmorecido,
Amava à toa, e amava a todo o pano...

Era um doido, afinal. E assim seguia
Pela vida, ora alegre, ora tristonho,
Cada noite sonhando um lindo sonho,
Chorando um sonho morto cada dia...

E eu, as horas da minha mocidade,
A segui-lo esbanjei uma por uma,
Ele era doido. Eu o seguia... Em suma
Éramos dois malucos de verdade.

Mas um dia a aventura foi mais louca:
Bateu por ti... A acompanhar-lhe os passos,
Sonhei teu corpo arfando nos meus braços
E teu beijo florindo em minha boca.

Ai, assim seduzido e deslumbrado,
Eu deixei-me levar, alma perdida;
Nunca senti tamanho amor na vida...
Olha que nunca fui tão desgraçado!

Como te amei! Mas pude felizmente
Abrir a tempo os olhos rasos d´água
Sobre esse abismo de insondável mágoa
Que a meus pés se rasgava, em minha frente.

Meu adoidado guia então detendo,
Disse-lhe: “Coração, meu pobre amigo,
“Basta! Corres em vão e em vão te sigo:
“É para a morte que tu vais correndo.

“Sim desta vez corremos para a morte:
“Por essa a quem te dás e me repele
“Não batas mais, ou morreremos...” e ele,
Ele, a chorar, pôs-se a bater mais forte.

Era demais, e recusei segui-lo:
Tentei contê-lo; resistiu-me, o louco.
Lutamos. Subjuguei-o: Pouco a pouco
Cedeu; prostrei-o. Ei-lo, afinal, tranqüilo.

Destroço inútil que se atira a um canto,
Deixei, sem dó, rolar esse vencido
Para a sombra de um vale ermo e esquecido
Longe do mundo em que sofremos tanto.

Enterrei-o nesse ermo, bem no fundo
De uma bem funda cova... Nem pudera
Jaula mais própria achar para essa fera,
Melhor prisão para esse vagabundo.

E agora que o deixei posto de lado,
Longe de mim, fora do meu caminho,
Penso, ao sentir-me bem indo sozinho,
Que antes só do que mal acompanhado.

Sozinho, avanço pela vida afora
Cantando e rindo, lépido e seguro;
Olho em frente – e por todo o meu futuro
Vejo raiar como um clarão de aurora...

Sinto-me livre e forte. Adeus, cuidados!
Adeus, canseira inútil de desejo!
Desabafem no alívio de um bocejo
Meus beijos murchos, que não foram dados.

Fatigado, apetece-me o descanso:
Com o mesmo olhar de indiferença, quero
Olhar-vos, terra de que nada espero,
E céu, longínquo céu que não alcanço!

Num sossego viril, de que me ufano,
Quero, sem ambição que me atormente,
Ver de cima, da margem da corrente,
Rolar embaixo o torvelinho humano.

Deusa que hoje aos meus olhos te humanizas!
Eu, que te amei humilde e miserando,
Eu calco aos pés o mesmo chão que pisas,
O mesmo chão que já beijei chorando.

Eu, que fui sempre desdenhado e triste,
Vingo-me agora rindo-me do mundo;
E, ó tu, que amei! os teus encantos fundo
No meu desdém por tudo quanto existe!

Ele, o meu pobre coração, lá dorme
No fundo do seu cárcere tremendo;
Lá dorme, o eterno sonhador, enchendo
De sonhos vãos a sua noite enorme.

E do seio da terra, que o consome
Tão lentamente, ouço de quando em quando
Subir a voz de alguém que está chamando,
De alguém que chora a murmurar teu nome...

Vicente de Carvalho

Ai de Mim! - António Nobre

Ai de Mim!

Venho, torna-me velho esta lembrança!
D'um enterro d'anjinho, nobre e puro:
Infancia, era este o nome da criança
Que, hoje, dorme entre os bichos, lá no escuro...

Trez anjos, a Chymera, o Amor, a Esperança
Acompanharam-n'o ao jazigo obscuro,
E recebeu, segundo a velha usança,
A chave do caixão o meu Futuro.

Hoje, ambulante e abandonada Ermida,
Leva-me o fado, á bruta, aos empurrões,
Vá para a frente! Marcha! Á Vida! Á Vida!

Que hei-de fazer, Senhor! o qu'é que espera
Um bacharel formado em illuzões
Pela Universidade da Chymera?

António Nobre

O Sinal da Cruz - Da costa e Silva

O Sinal da Cruz 
 
Se é preciso lutar para ser forte,
Se é preciso sofrer para ser puro,
Em luta e sofrimento a vida apuro,
Para tranqüilo merecer a morte.

Hei lutado e sofrido de tal sorte
Que, a tantas provações, meu ser impuro
Sonha atingir a perfeição que auguro
Em resignado e místico transporte.

A existência de lutas e de penas,
Como um cardo florindo entre os abrolhos,
Vou bendizendo pelo bem que faço.

E quando a morte vier, resta-me apenas
Juntar as mãos e levantar os olhos
Para o que exista em luz além do espaço.

Da costa e Silva

Epilogo - Antonio Nobre

Epilogo

Meu coração, não batas, pára!
Meu coração, vae-te deitar!
A nossa dor, bem sei, é amara,
A nossa dor, bem sei, é amara...
Meu coração, vamos sonhar...
Ao mundo vim, mas enganado.
Sinto-me farto de viver:
Vi o que elle era, estou massado,
Vi o que elle era, estou massado...
Não batas mais! vamos morrer...
Bati á porta da Ventura
Ninguem m'à abriu, bati em vão:
Vamos a ver se a sepultura,
Vamos a ver se a sepultura
Nos faz o mesmo, coração!
Adeus, Planeta! adeus, ó Lama!
Que a ambos nós vaes digerir...
Meu coração, a Velha chama,
Meu coração, a Velha chama...
Basta, por Deus! vamos dormir...

António Nobre

Maiakóvski - A Flauta Vértebra

A Flauta Vértebra

A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.

Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.

Vladimir Maiakóvski
(tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)


António Nobre - Ballada do Caixão

Ballada do Caixão

O meu vizinho é carpinteiro,
Algibebe de Dona Morte:
Ponteia e coze, o dia inteiro,
Fatos de pau de toda a sorte:
Mogno, debruados de velludo
Flandres gentil, pinho do Norte...
Ora eu que trago um sobretudo
Que já me vae a aborrecer,
Fui-me lá, hontem: (era Entrudo,
Havia immenso que fazer!...)
- Olá, bom homem! quero um fato,
Tem que me sirva? - Vamos ver...
Olhou, mexeu na caza toda...
- Eis aqui um e bem barato.

- Está na moda? - Está na moda.
(Gostei e nem quiz apreçal-o:
Muito justinho, pouca roda...)
- Quando posso mandar buscal-o?
- Ao por-do-sol. Vou dal-o a ferro:
(Poz-se o bom homem a aplainal-o...)

Ó meus amigos! salvo-erro,
Juro-o pela alma, pelo céu!
Nenhum de vós, ao meu enterro,
Irá mais dandy, olhae! do que eu!

António Nobre

Alquimista da morte - Alphonsus de Guimaraens

Alquimista da morte
Não me faleis de amor, nem das carícias
Com que a fronte do sol me atorçalastes...
As ilusões no mundo são fictícias;
As rosas pendem, sem cessar, das hastes.

Entre as pálpebras, em horas não propícias,
Morrem os olhos, onde os afogastes...
Só os astros brilham, como ideais delícias,
Eternamente, em perenais engastes.

Minh′alma vai seguindo, às vezes brusca,
Tranqüila às vezes; passa pelas portas
Como astro a que nenhuma luz ofusca.

Alquimista da morte, entre retortas
E cadinhos medievos, ando em busca
Da essência celestial das cousas mortas...

Alphonsus de Guimaraens

O Coveiro - Augusto dos Anjos

O Coveiro

Uma tarde de abril suave e pura
Visitava eu somente ao derradeiro
Lar; tinha ido ver a sepultura
De um ente caro, amigo verdadeiro.

Lá encontrei um pálido coveiro
Com a cabeça para o chão pendida;
Eu senti a minh'alma entristecida
E interroguei-o: "Eterno companheiro

Da morte, quem matou-te o coração?"
Ele apontou para uma cruz no chão,
Ali jazia o seu amor primeiro!

Depois, tomando a enxada, gravemente,
Balbuciou, sorrindo tristemente:

- "Ai, foi por isso que me fiz coveiro!"

(Augusto dos Anjos)