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Ana Cristina Cesar - Soneto



Soneto



Pergunto aqui se sou louca 
Quem quer saberá dizer 
Pergunto mais, se sou sã 
E ainda mais, se sou eu 

Que uso o viés pra amar 
E finjo fingir que finjo 
Adorar o fingimento 
Fingindo que sou fingida 

Pergunto aqui meus senhores 
quem é a loura donzela 
que se chama Ana Cristina 

E que se diz ser alguém 
É um fenômeno mor


Ou é um lapso sutil?


Ana Cristina Cesar 

No pódium dos prazeres - Miguel de Souza

No pódium dos prazeres

Numa potência vítrea de olhos baços
Escancaro, potentes, os tentáculos
Para provar também que sempre másculo
Sorvo da tênue força de seus braços.

E me extravio de emoção no aço
De seus olhos pungentes meio imáculos
Para mostrar-me lentes sustentáculos
Viro caça, e de agora em... não mais caço!

Fui pego pelas grades amicais
Que transformaram minha vida em ais...
Ais de gozos, de lúdicos dizeres...

E a força máscula do homem ágil
Foi vencida também... e o sexo frágil
Ergue a taça no pódium dos prazeres!

Miguel de Souza



Para Fazer um Soneto - Carlos Pena Filho

Para Fazer um Soneto

Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,
e espere um instante ocasional
neste curto intervalo Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial

Ai, adote uma atitude avara
se você preferir a cor local
não use mais que o sol da sua cara
e um pedaço de fundo de quintal

Se não procure o cinza e esta vagueza
das lembranças da infância, e não se apresse
antes, deixe levá-lo a correnteza

Mas ao chegar ao ponto em que se tece
dentro da escuridão a vã certeza
ponha tudo de lado e então comece.

Carlos Pena Filho





Vinícius de Moraes - Soneto de Fidelidade

Soneto de Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinícius de Moraes

Grande Amor - Cruz e Sousa

Grande Amor 

Grande amor, grande amor, grande mistério
Que as nossas almas trêmulas enlaça...
Céu que nos beija, céu que nos abraça
Num abismo de luz profundo e sério.

Eterno espasmo de um desejo etéreo
E bálsamo dos bálsamos da graça,
Chama secreta que nas almas passa
E deixa nelas um clarão sidéreo.

Cântico de anjos e de arcanjos vagos
Junto às águas sonâmbulas de lagos,
Sob as claras estrelas desprendido...

Selo perpétuo, puro e peregrino
Que prende as almas num igual destino,
Num beijo fecundado num gemido.

Cruz e Sousa

O Beija-Flor - Auta de Souza

O Beija-Flor

Acostumei-me a vê-lo todo o dia
De manhãzinha, alegre e prazenteiro,
Beijando as brancas flores de um canteiro
No meu jardim - a pátria da ambrosia.


Pequeno e lindo, só me parecia
Que era da noite o sonho derradeiro...
Vinha trazer às rosas o primeiro
Beijo do Sol, n’essa manhã tão fria!

Um dia, foi-se e não voltou... Mas, quando
A suspirar, me ponho contemplando,
Sombria e triste, o meu jardim risonho...

Digo, a pensar no tempo já passado;
Talvez, ó coração amargurado,

Aquele beija-flor fosse o teu sonho!

Auta de Souza


Fogo - Francisco Joaquim Bingre

Fogo

Faísca luminar da etérea chama
Que acendes nossa máquina vivente,
Que fazes nossa vista refulgente
Com eléctrico gás, com subtil flama:

A nossa construção por ti se inflama;
Por ti, o nosso sangue gira quente;
Por ti, as fibras tem vigor potente,
Teu vivo ardor por elas se derrama.

Tu, Fogo animador, nos vigorizas,
E à maneira de um voltejante rio,
Por todo o nosso corpo te deslizas.

O homem, só por ti tem força e brio
Mas, se tu o teu giro finalizas,
Quando a chama se apaga, ele cai frio.

Francisco Joaquim Bingre

A serenata - Augusto de Lima

A SERENATA

A.D. Olga de Suckow

Plenilunio de Maio em montanhas de Minas!
Canta, ao longe, uma flauta e um violoncello chora.
Perfuma-se o luar nas flôres das campinas,
subtilisa-se o aroma em languidez sonora.

Ao doce encantamento azul das cavatinas,
nessas noutes de luz mais bellas do que a aurora,
as errantes visões das almas peregrinas
vão voando a cantar pela amplidão afôra...

E chora o violoncello e a flauta, ao longe, canta.
Das montanhas, cantando, a nevoa se levanta,
banhada de luar, de sonhos, de harmonia.

Com profano rumor, porém, desponta o dia,
e na ultima porção da nevoa transparente
a flauta e o violoncello expiram lentamente.

Augusto de Lima

O cético - Augusto de Lima

O CÉTICO

“Percorro da ciência o labirinto,
e em tudo encontro um eco duvidoso:
matéria vã, espírito enganoso,
mentis, tudo é mentira, eu só não minto.

Vejo, é verdade, a vida e a vida sinto,
o calórico, a luz, a dor e o gozo,
a natureza em flor, o sol formoso
e o céu das cores da Aliança tinto.

Mas quem, senão eu mesmo, vê tudo isto?
e quem pode afirmar-me que eu existo,
visões celestes, velhas nebulosas?”

E em seu crânio a razão desponta e morre,
como o santelmo fátuo, que discorre
na solidão das minas tenebrosas.

Augusto de Lima


Em louvor do soneto - Félix Pacheco

EM LOUVOR DO SONETO

Outros se percam no marulho intenso,
E a lira afinem pelo canto vasto.
Eu, no meu lindo cárcere, me basto,
E não no julgo estreito, mas imenso.

Nestes curtos grilhões nunca me gasto.
Digo tudo que quero e quanto penso,
Satisfeito das perfídias que venço,
E orgulhoso dos óbices que afasto.

Ha quem prefira os poemas dilatados,
Amplas visões em versos numerosos,
Onde a rima extravase em grandes brados.

Eu, porém, a outros moldes me remeto,
E nunca tive um gozo entre os meus gozos
Que não coubesse dentro de um soneto!

(Soneto de abertura do livro No limiar do outono, 1919.)

Félix Pacheco

Ar - Francisco Joaquim Bingre

Ar

Vivificante ar, pai da existência,
Assopro animador do Autor Divino,
Deste nosso subtil moto contino
Composto, onde um Deus pôs sua ciência!

Tu tens, ó ar, a excelsa preeminência
De ser exalação do bafo Trino,
Tu susténs, sem cair, o home a pino:
Sem ti tem sempre pronta a decadência.

Tu as ardentes febres lhe mitigas
Nesta, do mundo, trabalhosa lida,
Nestas da Terra (sem cessar) fadigas.

Tu és o sustentáculo da vida,
Porém, quando do corpo te desligas,
Lhe dás, com dor, eterna despedida.

Francisco Joaquim Bingre

Ao Tempo - Francisco Joaquim Bingre

Ao Tempo

Levanta o pano, ó tragador das eras,
A cena mostra das fatais desditas,
Pois que no giro das paixões que incitas
Tragar venturas, vorazmente, esperas.

Do vário mundo que só nutre feras,
Co'a torva dextra lhe desvia as ditas.
Solta das asas as Tentações malditas,
Os filhos traga, que indolente geras.

Leva de rojo, c'o decretado gume,
Planos que traças ao profundo Averno.
Acende e apaga da Razão o lume!

Ó Tempo, ó Tempo, regedor do Inferno!
Louvem-te as Fúrias, de quem tens ciúme,
Que só adoro as decisões do Eterno.

Francisco Joaquim Bingre

Deus, Infinito Ser - Francisco Joaquim Bingre

Deus, Infinito Ser

Deus, Infinito ser, nunca criado,
Sem princípio, nem fim, na Majestade
Que no trono da Eterna Divindade
Tens o Mundo num dedo dependurado:

Tu estavas em Ti, não foste nado,
O teu Ser era a tua Imensidade,
Tu tiveste por berço a Eternidade,
Tu, sem tempo, em Ti mesmo eras gerado!

Tu és um fogo que arde sem matéria,
Tu és perpétua luz, que não desmaia
Fulgindo, sem cessar, na sala etérea!

Tu és um mar de amor, que não tem praia,
Trovão assustador da esfera aérea,
Rei dum Reino Imortal, que não tem raia!...

Francisco Joaquim Bingre

Podes, ó Tempo, Entrar: Eu Te Convido - Francisco Joaquim Bingre

Podes, ó Tempo, Entrar: Eu Te Convido

Podes, ó Tempo, entrar: eu te convido
A ser hóspede meu, que eu nunca faço
Distinção quando és bom ou mau, pois passo
Os meus dias, de ti nunca esquecido.

Ou me batas à porta, enfurecido,
Envolto em furacões, com torvo braço,
Ou entres brandamente, passo a passo,
Cum sorriso na boca apetecido:

Ou me sejas contrário, ou venturoso,
Eu me acomodo a ti e a pouco custo,
Se visitar-me vens, tempestuoso.

Às tuas intenções sempre me ajusto.
Tu, a quem pensa, és sempre proveitoso:
Feliz quem te ama sem pavor nem susto.

Francisco Joaquim Bingre

A Inocência - Francisco Joaquim Bingre

A Inocência

Caminhando no mundo vai segura
A Inocência, com grave firme passo.
Sem temor de cair no infame laço
Que arma a traidora mão, a mão perjura.

Como não obra mal, nem mal procura
Para os seus semelhantes, corre o espaço
Sem lança, sem arnês, sem peito de aço,
Armada só de consciência pura.

Pois que ofensa não faz, não teme ofensa
E por isso passeia, satisfeita,
Sem as feras temer na selva densa.

Traições, ódios, vinganças não espreita.
Certa no bem que faz, só nele pensa:
Quem remorsos não tem, mal não suspeita.

Francisco Joaquim Bingre

O Avarento - Francisco Joaquim Bingre

O Avarento

No meio de seus cofres, desvelado,
Co'as tampas levantadas, rasas de ouro,
Cevando a vista está no metal louro
Dele o cioso Avarento namorado.

Temendo que lhe venha a ser roubado,
Emprega alma e vida em seu tesouro,
Girando com os olhos, qual besouro,
Zumbindo sem cessar, afervorado.

Fechado nele está, com sete portas,
Com temor de algum fero arrombamento
De astutas invenções, de ideias tortas.

Não emprega em mais nada o pensamento.
Cega ambição de vãs riquezas mortas!
Quão infeliz não és, louco avarento!

Francisco Joaquim Bingre

Augusto de Lima - A descida

A descida
Homem remove este rochedo e a rara
galeria interior contempla e estuda;
desce, e da terra pela ossada muda
leva tua razão de ciência avara.

Na treva expira a luz há pouco clara,
o ar em sulfúreo gaz já se transmuda
coragem! desce, e os séculos saúda,
desce mais, desce mais... agora pára.

Mas não! lá fulge um fogo subterrâneo:
- e mergulhas no cérebro do globo,
- e lhe penetras de outro lado o crânio.

Desce! não! sobre agora; um brilho intenso
banha-te o corpo, e num heróico arroubo
eis-te boiando no oceano imenso.

Augusto de Lima 


Soneto do Suicida - Joaquim Cardoso

Soneto do Suicida
Com minhas próprias mãos abro esta porta
Que dá para o jardim do esquecimento
Onde vejo a cisterna e vejo a horta
De água e fruto inválidos. Movimento

De asas infinitas os ares corta
E fecha o meu aberto pensamento
No ponto essencial da linha torta
Que do ser é limite e acabamento

Com minhas próprias mãos cultivo a terra
Da morte: a terra ex-terra, a finis terra,
E o adubo da Imemória manuseio

O gesto de lançar uma semente
É como um gesto de adeus; só e ausente,
Neste jardim eu próprio me semeio.

Joaquim Cardoso

Este amor que vos tenho, limpo e puro - Luís de Camões

Este amor que vos tenho, limpo e puro

Este amor que vos tenho, limpo e puro
De pensamento vil nunca tocado,
Em minha tenra idade começado
Tê-lo dentro nesta alma só procuro.

De haver nele mudança estou seguro,
Sem temer nenhum caso ou duro Fado,
Nem o supremo bem ou baixo estado,
Nem o tempo presente nem futuro.

A bonina e a flor asinha passa;
Tudo por terra o Inverno e Estio deita;
Só pera meu amor é sempre Maio.

Mas ver-vos pera mim, Senhora, escassa,
E que essa ingratidão tudo me enjeita,
Traz este meu amor sempre em desmaio.


Luís de Camões

Luís de Camões - O Mágico Veneno

O Mágico Veneno

Um mover de olhos, brando e piedoso,
Sem ver de quê; um riso brando e honesto,
Quase forçado; um doce e humilde gesto,
De qualquer alegria duvidoso;

Um despejo quieto e vergonhoso;
Um repouso gravíssimo e modesto;
Uma pura bondade, manifesto
Indício da alma, limpo e gracioso;

Um encolhido ousar; uma brandura;
Um medo sem ter culpa; um ar sereno;
Um longo e obediente sofrimento;

Esta foi a celeste formosura
Da minha Circe, e o mágico veneno
Que pôde transformar meu pensamento.

Luís Vaz de Camões