Saudade é carinho
Dizer que sente saudade
É quase dizer um eu te amo
É deixar clara a vontade
De abraçar aquele ser humano
Que está em outra cidade
Outro país ou em outro plano
Dizer que saudade sente
Daquela pessoa tão querida
Que por estar ausente
Faz tanta falta em sua vida
É a forma mais eloquente
De sentir a falta desmedida
A saudade é um carinho
Afago feito bem de longe
É coração lembrando sozinho
Do sentimento que se esconde
É querer estar bem juntinho
Não importando quando, nem onde
Que a saudade não mude
O seu jeito de nos ensinar
Que sentir falta é uma virtude
Para a gente o outro valorizar
Saudade é sinal de saúde
Para aquele que sabe amar.
Giano Guimarães
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Saudades - Arnaldo Antunes
Saudades
Não tenho saudades
do que vivi
porque tudo
está aqui
encorpado
dentro de mim
como um fígado
um pâncreas
um rim
não tenho saudades
do que vivi
(vi ouvi sonhei senti)
pois já se tornou
o que sou
não tenho saudades
do que vivi
tenho saudades do que viveram
aqueles com quem convivi
não do que vi, do que viram
não do que ouvi, do que ouviram
do que sonharam, sentiram
as pessoas que perdi
Arnaldo Antunes
Não tenho saudades
do que vivi
porque tudo
está aqui
encorpado
dentro de mim
como um fígado
um pâncreas
um rim
não tenho saudades
do que vivi
(vi ouvi sonhei senti)
pois já se tornou
o que sou
não tenho saudades
do que vivi
tenho saudades do que viveram
aqueles com quem convivi
não do que vi, do que viram
não do que ouvi, do que ouviram
do que sonharam, sentiram
as pessoas que perdi
Arnaldo Antunes
É um tormento - Apolinário Pais de Oliveira Filho
É um tormento
I
A saudade é um tormento
Como o vento
Quando sopra nas colinas
E se rebela
Contra as àguas cristalinas
Fazendo ondas
Tenebrosas na ilusão Mas, por amor.
E sem querer
Eu fiz da vida a natureza
Fiz da saudade
Um riacho de tristezas
E da esperança
Um sol cheio de calor.
II
Para mim esta saudade
que invade
o coração tão de repente
Penetra
Sem razão dentro da gente
Alimentando
A ânsia louca de viver
Até encontrar,
O grande amor
Seu ideal que tanto espera
Como as flores
Que só vêm na primavera
Mas com certeza
Que ela um dia vai chegar
III
Noite calma enluarada
Não há nada
Ao meu redor estou sozinho
E pelas trilhas
da esperança eu caminho
Deixando rastos
De saudade aonde vou
Mas eu não sei
Se estou tentando
Uma fuga de mim. Mesmo,
que eu procure
o grande amor que está a esmo
Pra libertar
Da provação que já passei.
IV
Tempo frio, vento em sêco
Estou num bêco
Parecendo folhas mortas
è tudo triste
Onde estou, mas não importa
Sei que um dia
vai chover e eu vou sair
Deste lugar
Se a saudade
Arrastou-me assim na lama
A esperança
Já tirou-me e pôs na cama
Junto do amor
com quem sonhei vou despertar.
Apolinário Pais de Oliveira Filho
I
A saudade é um tormento
Como o vento
Quando sopra nas colinas
E se rebela
Contra as àguas cristalinas
Fazendo ondas
Tenebrosas na ilusão Mas, por amor.
E sem querer
Eu fiz da vida a natureza
Fiz da saudade
Um riacho de tristezas
E da esperança
Um sol cheio de calor.
II
Para mim esta saudade
que invade
o coração tão de repente
Penetra
Sem razão dentro da gente
Alimentando
A ânsia louca de viver
Até encontrar,
O grande amor
Seu ideal que tanto espera
Como as flores
Que só vêm na primavera
Mas com certeza
Que ela um dia vai chegar
III
Noite calma enluarada
Não há nada
Ao meu redor estou sozinho
E pelas trilhas
da esperança eu caminho
Deixando rastos
De saudade aonde vou
Mas eu não sei
Se estou tentando
Uma fuga de mim. Mesmo,
que eu procure
o grande amor que está a esmo
Pra libertar
Da provação que já passei.
IV
Tempo frio, vento em sêco
Estou num bêco
Parecendo folhas mortas
è tudo triste
Onde estou, mas não importa
Sei que um dia
vai chover e eu vou sair
Deste lugar
Se a saudade
Arrastou-me assim na lama
A esperança
Já tirou-me e pôs na cama
Junto do amor
com quem sonhei vou despertar.
Apolinário Pais de Oliveira Filho
Ao meu coração - Adélia Fonseca
Ao meu coração
Porque estás tão apressado,
Coração, a palpitar?
Queres, deixando meu peito,
Por esses ares voar?
Queres do meu pensamento
A carreira acompanhar?
Queres, misero insensato,
Este desejo cumprir?
Intentas da fantasia
Os amplos voos seguir?
Buscas, vencendo a distancia,
Tua saudade extinguir?...
Esta saudade tão funda,
Tão viva, tão pertinaz,
Que te faz tão desgraçado,
Que tão ditoso te faz?
Que tanto te amarga ás vezes
Que ás vezes tanto te apraz?
Pretendes tu, pobre louco,
Tuas dores aumentar?
Desejas ao lado — d’Elle —
De martírios te fartar?
Queres nos olhos, que adoras
Mais desenganos buscar?
Si ao excesso do tormento
Tivesses de sucumbir,
Quem tanto havia de ama-lo,
Deixando tu de existir?
Quem ousaria contigo
Em firmeza competir?
E ele, onde poderia
Tão soberano reinar?
Onde iria sua imagem
Obter tão devoto altar,
E tão desvelado culto,
Tão fervoroso, encontrar?
Deixa ir só meu pensamento,
De seus voos na amplidão;
Quem sabe se ao lado de outra
O acharás, coração?
Morre embora de saudade;
Porem de ciúme... não!
Adélia Fonseca
Porque estás tão apressado,
Coração, a palpitar?
Queres, deixando meu peito,
Por esses ares voar?
Queres do meu pensamento
A carreira acompanhar?
Queres, misero insensato,
Este desejo cumprir?
Intentas da fantasia
Os amplos voos seguir?
Buscas, vencendo a distancia,
Tua saudade extinguir?...
Esta saudade tão funda,
Tão viva, tão pertinaz,
Que te faz tão desgraçado,
Que tão ditoso te faz?
Que tanto te amarga ás vezes
Que ás vezes tanto te apraz?
Pretendes tu, pobre louco,
Tuas dores aumentar?
Desejas ao lado — d’Elle —
De martírios te fartar?
Queres nos olhos, que adoras
Mais desenganos buscar?
Si ao excesso do tormento
Tivesses de sucumbir,
Quem tanto havia de ama-lo,
Deixando tu de existir?
Quem ousaria contigo
Em firmeza competir?
E ele, onde poderia
Tão soberano reinar?
Onde iria sua imagem
Obter tão devoto altar,
E tão desvelado culto,
Tão fervoroso, encontrar?
Deixa ir só meu pensamento,
De seus voos na amplidão;
Quem sabe se ao lado de outra
O acharás, coração?
Morre embora de saudade;
Porem de ciúme... não!
Adélia Fonseca
Canção do Exílio - Gonçalves Dias
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossa, várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Gonçalves Dias
A saudade - Adélia Fonseca
A saudade
No meu seio uma flor d’esperança
Cultivei com desvelo perfeito;
Mas o rijo tufão da desgraça
Arrancou-me a florinha do peito.
Ella foi ’n um abysmo funesto
De cruel desengano cahir,
E após veio a mais negra saudade
Com espinhos minh’alma pungir.
Tu ao menos, ó flor de infelizes,
Tu ao menos não me has de deixar;
Si a desgraça plantou-te em meu peito,
D’elle mais te não póde arrancar.
Essas vãs alegrias do mundo,
Esses gozos que o mundo aprecia,
Eu os tróco, saudade adorada,
Pela tua fiel companhia.
Emquanto eu existir, do martyrio,
Vivirás, p’ra me dares a palma;
Si a ventura tentasse levar-te,
Levaria comtigo minh’alma.
Tu ao menos, ó flor de infelizes,
Tu ao menos não me has de deixar;
Si a desgraça plantou-te em meu peito,
D’elle mais te não póde arrancar.
Nem espero que mude meu fado;
E si attento em meu triste futuro,
Nelle vejo — indiziveis angustias
Um sepulchro cavando-me escuro!
Praza a Deus, que com tantos desgostos,
Minha pobre razão não feneça;
Que a saudade me não desampare,
Nem seu dôce motivo eu esqueça.
Sim, permitte, Senhor, que em minh’alma
Ache sempre uma imagem querida,
Que, a despeito da sorte mesquinha,
Me atormente, encantando-me a vida.
Que essas vãs alegrias do mundo,
Esses gozos que o mundo aprecia,
Da saudade adorada eu os tróco
Pela dôce e fiel companhia.
Adélia Fonseca
No meu seio uma flor d’esperança
Cultivei com desvelo perfeito;
Mas o rijo tufão da desgraça
Arrancou-me a florinha do peito.
Ella foi ’n um abysmo funesto
De cruel desengano cahir,
E após veio a mais negra saudade
Com espinhos minh’alma pungir.
Tu ao menos, ó flor de infelizes,
Tu ao menos não me has de deixar;
Si a desgraça plantou-te em meu peito,
D’elle mais te não póde arrancar.
Essas vãs alegrias do mundo,
Esses gozos que o mundo aprecia,
Eu os tróco, saudade adorada,
Pela tua fiel companhia.
Emquanto eu existir, do martyrio,
Vivirás, p’ra me dares a palma;
Si a ventura tentasse levar-te,
Levaria comtigo minh’alma.
Tu ao menos, ó flor de infelizes,
Tu ao menos não me has de deixar;
Si a desgraça plantou-te em meu peito,
D’elle mais te não póde arrancar.
Nem espero que mude meu fado;
E si attento em meu triste futuro,
Nelle vejo — indiziveis angustias
Um sepulchro cavando-me escuro!
Praza a Deus, que com tantos desgostos,
Minha pobre razão não feneça;
Que a saudade me não desampare,
Nem seu dôce motivo eu esqueça.
Sim, permitte, Senhor, que em minh’alma
Ache sempre uma imagem querida,
Que, a despeito da sorte mesquinha,
Me atormente, encantando-me a vida.
Que essas vãs alegrias do mundo,
Esses gozos que o mundo aprecia,
Da saudade adorada eu os tróco
Pela dôce e fiel companhia.
Adélia Fonseca
Vela Branca - Adelmar Tavares
Vela Branca
Vela branca, vela branca,
que vais lá longe... no mar...
quem me dera, vela branca,
que me quisesses levar
para tão longe... tão longe,
que eu não pudesse voltar...
Mas uma vez, vela branca,
que não me queres levar,
para tão longe... tão longe...
que eu não pudesse voltar,
leva-me a saudade dela
para o mais fundo do mar.
Vela branca, vela branca,
que vais lá longe... no mar...
quem me dera, vela branca,
que me quisesses levar
para tão longe... tão longe,
que eu não pudesse voltar...
Mas uma vez, vela branca,
que não me queres levar,
para tão longe... tão longe...
que eu não pudesse voltar,
leva-me a saudade dela
para o mais fundo do mar.
Adelmar Tavares
Saudade é não saber - Martha Medeiros
Imagens do Nordeste - Joaquim Cardoso
Imagens do Nordeste
Sobre o capim orvalhado
Por baixo das mangabeiras
Há rastros de luz macia:
Por aqui passaram luas,
Pousaram aves bravias.
Idílio de amor perdido,
Encanto de moça nua
Na água triste da camboa;
Em junhos do meu Nordeste
Fantasma que me povoa.
Asa e flor do azul profundo,
Primazia do mar alto,
Vela branca predileta;
Na transparência do dia
És a flâmula discreta.
És a lâmina ligeira
Cortando a lã dos cordeiros,
Ferindo os ramos dourados;
– Chama intrépida e minguante
nos ares maravilhados.
E enquanto o sol vai descendo
O vento recolhe as nuvens
E o vento desfaz a lã;
Vela branca desvairada,
Mariposa da manhã.
Velho calor de Dezembro,
Chuva das águas primeiras
Feliz batendo nas telhas;
Verão de frutas maduras,
Verão de mangas vermelhas.
A minha casa amarela
Tinha seis janelas verdes
Do lado do sol nascente;
Janelas sobre a esperança
Paisagem, profundamente.
Abri as leves comportas
E as águas duras fundiram;
Num sopro de maresia
Viveiros se derramaram
Em noites de pescaria.
Camarupim, Mamanguape,
Persinunga, Pirapama,
Serinhaém, Jaboatão;
Cruzando barras de rios
Me perdi na solidão.
Me afastei sobre a planície
Das várzeas crepusculares;
Vi nuvens em torvelinho,
Estrelas de encruzilhadas
Nos rumos do meu caminho.
............................................................
Salinas de Santo Amaro,
Ondas de terra salgada,
Revoltas, na escuridão,
De silêncio e de naufrágio
Cobrindo a tantos no chão.
Terra crescida, plantada
De muita recordação.
Sobre o capim orvalhado
Por baixo das mangabeiras
Há rastros de luz macia:
Por aqui passaram luas,
Pousaram aves bravias.
Idílio de amor perdido,
Encanto de moça nua
Na água triste da camboa;
Em junhos do meu Nordeste
Fantasma que me povoa.
Asa e flor do azul profundo,
Primazia do mar alto,
Vela branca predileta;
Na transparência do dia
És a flâmula discreta.
És a lâmina ligeira
Cortando a lã dos cordeiros,
Ferindo os ramos dourados;
– Chama intrépida e minguante
nos ares maravilhados.
E enquanto o sol vai descendo
O vento recolhe as nuvens
E o vento desfaz a lã;
Vela branca desvairada,
Mariposa da manhã.
Velho calor de Dezembro,
Chuva das águas primeiras
Feliz batendo nas telhas;
Verão de frutas maduras,
Verão de mangas vermelhas.
A minha casa amarela
Tinha seis janelas verdes
Do lado do sol nascente;
Janelas sobre a esperança
Paisagem, profundamente.
Abri as leves comportas
E as águas duras fundiram;
Num sopro de maresia
Viveiros se derramaram
Em noites de pescaria.
Camarupim, Mamanguape,
Persinunga, Pirapama,
Serinhaém, Jaboatão;
Cruzando barras de rios
Me perdi na solidão.
Me afastei sobre a planície
Das várzeas crepusculares;
Vi nuvens em torvelinho,
Estrelas de encruzilhadas
Nos rumos do meu caminho.
............................................................
Salinas de Santo Amaro,
Ondas de terra salgada,
Revoltas, na escuridão,
De silêncio e de naufrágio
Cobrindo a tantos no chão.
Terra crescida, plantada
De muita recordação.
Joaquim Cardoso
Saudade (Augusto dos Anjos)
Saudade
Hoje que a mágoa me apunhala o seio,
E o coração me rasga atroz, imensa,
Eu a bendigo da descrença em meio,
Porque eu hoje só vivo da descrença.
À noite quando em funda soledade
Minh'alma se recolhe tristemente,
Pra iluminar-me a alma descontente,
Se acende o círio triste da Saudade.
E assim afeito às mágoas e ao tormento,
E à dor e ao sofrimento eterno afeito,
Para dar vida à dor e ao sofrimento,
Da saudade na campa enegrecida
Guardo a lembrança que me sangra o peito,
Mas que no entanto me alimenta a vida.
Augusto dos Anjos
Hoje que a mágoa me apunhala o seio,
E o coração me rasga atroz, imensa,
Eu a bendigo da descrença em meio,
Porque eu hoje só vivo da descrença.
À noite quando em funda soledade
Minh'alma se recolhe tristemente,
Pra iluminar-me a alma descontente,
Se acende o círio triste da Saudade.
E assim afeito às mágoas e ao tormento,
E à dor e ao sofrimento eterno afeito,
Para dar vida à dor e ao sofrimento,
Da saudade na campa enegrecida
Guardo a lembrança que me sangra o peito,
Mas que no entanto me alimenta a vida.
Augusto dos Anjos
Os Olhos Vêem Sem Ver... - Da Costa e Silva
Os Olhos Vêem Sem Ver...
Quando te quero ver, cerro as pálpebras e,
Concentrando a visão, fico a pensar em ti.
Aos olhos vem-me assim, num sonho ingênuo e doce,
A tua imagem fiel, como se viva fosse.
E eu sinto bem que és tu, que emerges do meu ser,
Numa névoa fugaz, para eu te poder ver.
Névoa que se faz luz, sombra que se ilumina,
Vens espiritualmente assomar à retina...
Surges no coração, onde hoje vives, pois
Sobes ao pensamento e ao olhar vens depois.
Tens em tudo a expressão que no mundo tiveste,
Tenha embora a beleza um encanto celeste.
Mas, em forma incorpórea, és tu mesma, porque
Como te vi em vida a alma em sonho te vê.
E é tão viva a impressão que ninguém se persuade
De que a vida se extinga, existindo a saudade...
Não pode ser engano a visão interior
Que os olhos vêem sem ver, por milagre do amor.
Quem sabe há no meu ser um espelho encantado,
Onde indelével se reflete o meu passado!
Acaso há dentro em mim uma fonte de luz,
Que a tua vida em minha vida reproduz!
É por isso, talvez, que em vago encantamento,
Eu me deixo levar pelo meu pensamento.
E, se te quero ver, fecho os olhos e, então,
Em silêncio me entrego a essa amada ilusão...
Quando te quero ver, cerro as pálpebras e,
Concentrando a visão, fico a pensar em ti.
Aos olhos vem-me assim, num sonho ingênuo e doce,
A tua imagem fiel, como se viva fosse.
E eu sinto bem que és tu, que emerges do meu ser,
Numa névoa fugaz, para eu te poder ver.
Névoa que se faz luz, sombra que se ilumina,
Vens espiritualmente assomar à retina...
Surges no coração, onde hoje vives, pois
Sobes ao pensamento e ao olhar vens depois.
Tens em tudo a expressão que no mundo tiveste,
Tenha embora a beleza um encanto celeste.
Mas, em forma incorpórea, és tu mesma, porque
Como te vi em vida a alma em sonho te vê.
E é tão viva a impressão que ninguém se persuade
De que a vida se extinga, existindo a saudade...
Não pode ser engano a visão interior
Que os olhos vêem sem ver, por milagre do amor.
Quem sabe há no meu ser um espelho encantado,
Onde indelével se reflete o meu passado!
Acaso há dentro em mim uma fonte de luz,
Que a tua vida em minha vida reproduz!
É por isso, talvez, que em vago encantamento,
Eu me deixo levar pelo meu pensamento.
E, se te quero ver, fecho os olhos e, então,
Em silêncio me entrego a essa amada ilusão...
Da Costa e Silva
Saudação da saudade - Alice Ruiz
Saudação da saudade
minha saudade
saúda tua ida
mesmo sabendo
que uma vinda
só é possível
noutra vida
aqui, no reino
do escuro
e do silêncio
minha saudade
absurda e muda
procura às cegas
te trazer à luz
ali, onde
nem mesmo você
sabe mais
talvez, enfim
nos espere
o esquecimento
aí, ainda assim
minha saudade
te saúda
e se despede
de mim
Alice Ruiz
minha saudade
saúda tua ida
mesmo sabendo
que uma vinda
só é possível
noutra vida
aqui, no reino
do escuro
e do silêncio
minha saudade
absurda e muda
procura às cegas
te trazer à luz
ali, onde
nem mesmo você
sabe mais
talvez, enfim
nos espere
o esquecimento
aí, ainda assim
minha saudade
te saúda
e se despede
de mim
Alice Ruiz
Caos - Ivone Boechat
Caos
Há um momento na vida
de terror definitivo,
de fracasso tremendo,
de sangrar a ferida.
Nada rende,
não há remendo,
nem consolo,
nem saída;
luta perdida.
A lágrima não significa,
o amor cruza os braços,
a saudade diz que vai,
e fica.
Ivone Boechat
Há um momento na vida
de terror definitivo,
de fracasso tremendo,
de sangrar a ferida.
Nada rende,
não há remendo,
nem consolo,
nem saída;
luta perdida.
A lágrima não significa,
o amor cruza os braços,
a saudade diz que vai,
e fica.
Ivone Boechat
Saudade - Da Costa e Silva
Saudade
Saudade - olhar de minha mãe rezando
e o pranto lento deslizando em fio
saudade amor da minha terra... o rio
cantigas de águas claras soluçando.
Noites de junho. O caboré com frio,
ao luar, sobre o arvoredo, piando, piando...
e à noite as folhas lívidas cantando
a saudade infeliz de um sol de estio.
Saudade - asa de dor do pensamento|
gemidos vãos de canaviais ao vento...
Ai, mortalhas de neve sobre a serra.
Saudade - o Parnaíba - velho monge
as barbas brancas alongando... e ao longe
o mugido dos bois da minha terra...
Saudade - olhar de minha mãe rezando
e o pranto lento deslizando em fio
saudade amor da minha terra... o rio
cantigas de águas claras soluçando.
Noites de junho. O caboré com frio,
ao luar, sobre o arvoredo, piando, piando...
e à noite as folhas lívidas cantando
a saudade infeliz de um sol de estio.
Saudade - asa de dor do pensamento|
gemidos vãos de canaviais ao vento...
Ai, mortalhas de neve sobre a serra.
Saudade - o Parnaíba - velho monge
as barbas brancas alongando... e ao longe
o mugido dos bois da minha terra...
Da Costa e Silva
Saudade (Auta de Souza)
Saudade
A ela, a Eugênia, a doce criatura que me chama irmã.
Longe de ti meu coração padece!
Ah! se soubesses como dói o pranto
Que eternamente de meus olhos desce!
Ah! se soubesses!... Não perguntarias
De onde é que vem esta sombria mágoa
Que traz-me o peito cheio de agonias
E os tristes olhos arrasados d’água!
Querem que a lira de meus versos cante
Mais esperança e menos amargura,
Que fale em noites de luar errante
E não invoque a pobre noite escura.
Mas... como posso eu levar sonhando
A vida inteira n’um anseio infindo,
Se choro mesmo quando estou cantando
Se choro mesmo quando estou sorrindo!
Ouve, ó formosa e doce e imaculada,
Visão gentil de eterna fantasia:
Minh’alma é uma saudade desfolhada
De mãe querida sobre a cova fria.
Ah! minha mãe! Pois tu não sabes, santa,
Que Ela partiu e me deixou no berço?
Desde esse dia a minha lira canta
Toda a saudade que lhe inspira o verso!
Depois que Ela se foi a Mágoa veio
Encher-me o coração de luto e abrolhos.
Eu sofro tanto longe de seu seio,
Eu sofro tanto longe de seus olhos!
Ó minha Eugênia! Estrela abençoada
Que iluminas o horror deste deserto...
De teu afeto a chama consagrada
Lança à minh’alma como um pálio aberto.
Quando beijares teus filhinhos, pensa
O que seria d’eles sem teus beijos;
E, então, compreenderás a dor imensa,
A amargura cruel destes harpejos!
Junta as mãozinhas dos pequenos lírios,
Das criancinhas que tu’alma adora,
E ensina-os a rezar sobre os martírios
E a saudade infinita de quem chora.
Auta de Souza
Despedida - Paulo Setúbal
Despedida
Não há cores, não ha traços,
Que digam quanto eu sofri,
Ao apertar em meus braços,
Com o coração aos pedaços,
As boas gentes daqui!
Que cena... Adeus, Sizenandol
Té a volta, Zé! Chico, adeus!
Então, nhô Juca, até quando?
— E estreito assim todo um bando
De velhos amigos meus!
Chiquita, flor timorata,
Como eu te abraço com dor...
E ela, a menina gaiata,
Singelamente desata
Num pranto acabrunhador.
Fundo pesar se acrisola
No peito dos que ali estão:
Não chore assim, nhá Carola!
Seu choro me desconsola
E punge meu coração!
Ai, fujo dela! E, na fuga,
Eu vejo-a lá, no portal,
Tão velha, com tanta ruga,
Que ainda os olhos enxuga
Numa ponta do avental!
Pela estrada, velha e torta,
Sigo num largo trotar;
E o coração se me corta,
Ao vê-los todos, na porta,
Com um lenço branco a acenar...
E sigo... Adeus, lenço branco!
Adeus, cafeeiros, adeus!
Bem sinto, a cada barranco,
Que eu, sufocado, me arranco
Destes lugares tão meus!
E sigo... Quantos recamos
De claro e verde matiz!
Riem-se as flores nos ramos,
Esvoaçam os gaturamos,
E beijam-se os colibris!
E ai! que tristeza me invade
Nesta sonora manhã!
Com que mordente saudade,
Volto ao horror da cidade,
Ao pó da vida malsã!
Deixar o campo, as charruas,
Todo este encanto rural,
Para entediar-me nas ruas,
Sabendo as vis falcatruas
Que fez o Ministro tal...
Em vez da caça às perdizes,
Da espera junto aos mundéus,
Vir, como outros infelizes,
Tratar no foro com juizes,
E ouvir nas grades os réus!
E eu, detestando isso tudo,
Num desalento cruel,
Tenho o desejo sanhudo
De espedaçar o canudo
Com a carta de bacharel,
E, na doçura que encerra
Esta simpleza daqui,
Viver de novo, na serra,
Entre as gentes desta terra,
A vida que eu já vivi...
Não há cores, não ha traços,
Que digam quanto eu sofri,
Ao apertar em meus braços,
Com o coração aos pedaços,
As boas gentes daqui!
Que cena... Adeus, Sizenandol
Té a volta, Zé! Chico, adeus!
Então, nhô Juca, até quando?
— E estreito assim todo um bando
De velhos amigos meus!
Chiquita, flor timorata,
Como eu te abraço com dor...
E ela, a menina gaiata,
Singelamente desata
Num pranto acabrunhador.
Fundo pesar se acrisola
No peito dos que ali estão:
Não chore assim, nhá Carola!
Seu choro me desconsola
E punge meu coração!
Ai, fujo dela! E, na fuga,
Eu vejo-a lá, no portal,
Tão velha, com tanta ruga,
Que ainda os olhos enxuga
Numa ponta do avental!
Pela estrada, velha e torta,
Sigo num largo trotar;
E o coração se me corta,
Ao vê-los todos, na porta,
Com um lenço branco a acenar...
E sigo... Adeus, lenço branco!
Adeus, cafeeiros, adeus!
Bem sinto, a cada barranco,
Que eu, sufocado, me arranco
Destes lugares tão meus!
E sigo... Quantos recamos
De claro e verde matiz!
Riem-se as flores nos ramos,
Esvoaçam os gaturamos,
E beijam-se os colibris!
E ai! que tristeza me invade
Nesta sonora manhã!
Com que mordente saudade,
Volto ao horror da cidade,
Ao pó da vida malsã!
Deixar o campo, as charruas,
Todo este encanto rural,
Para entediar-me nas ruas,
Sabendo as vis falcatruas
Que fez o Ministro tal...
Em vez da caça às perdizes,
Da espera junto aos mundéus,
Vir, como outros infelizes,
Tratar no foro com juizes,
E ouvir nas grades os réus!
E eu, detestando isso tudo,
Num desalento cruel,
Tenho o desejo sanhudo
De espedaçar o canudo
Com a carta de bacharel,
E, na doçura que encerra
Esta simpleza daqui,
Viver de novo, na serra,
Entre as gentes desta terra,
A vida que eu já vivi...
Paulo Setúbal
Eterna dor - Artur de Azevedo
Eterna Dor
Já te esqueceram todos neste mundo. . .
Só eu, meu doce amor, só eu me lembro,
Daquela escura noite de setembro
Em que da cova te deixei no fundo.
Desde esse dia um látego iracundo
Açoitando-me está, membro por membro.
Por isso que de ti não me deslembro,
Nem com outra te meço ou te confundo.
Quando, entre os brancos mausoléus, perdido,
Vou chorar minha acerba desventura,
Eu tenho a sensação de haver morrido!
E até, meu doce amor, se me afigura,
Ao beijar o teu túmulo esquecido,
Que beijo a minha própria sepultura!
Já te esqueceram todos neste mundo. . .
Só eu, meu doce amor, só eu me lembro,
Daquela escura noite de setembro
Em que da cova te deixei no fundo.
Desde esse dia um látego iracundo
Açoitando-me está, membro por membro.
Por isso que de ti não me deslembro,
Nem com outra te meço ou te confundo.
Quando, entre os brancos mausoléus, perdido,
Vou chorar minha acerba desventura,
Eu tenho a sensação de haver morrido!
E até, meu doce amor, se me afigura,
Ao beijar o teu túmulo esquecido,
Que beijo a minha própria sepultura!
Artur de Azevedo
Saudade - Bernardo Guimarães
Saudade
Vem, ó saudade, toma-me em teu carro,
Em teu regaço leva-me dormindo,
Entre fagueiros sonhos embalado
Por esse espaço infindo.
Leva-me além daquele erguido monte,
Que lá campeia quase que sumido
Nas brumas do horizonte.
Leva-me além; - oh! muito além ainda;
Do eterno plaino largo campo fende;
E entre escalvadas serranias broncas
O carro teu suspende.
Aí nas abas de sombrio morro
Abate o vôo, e deixa-me nos braços
Daquela por quem morro.
Bernardo Guimarães
Vem, ó saudade, toma-me em teu carro,
Em teu regaço leva-me dormindo,
Entre fagueiros sonhos embalado
Por esse espaço infindo.
Leva-me além daquele erguido monte,
Que lá campeia quase que sumido
Nas brumas do horizonte.
Leva-me além; - oh! muito além ainda;
Do eterno plaino largo campo fende;
E entre escalvadas serranias broncas
O carro teu suspende.
Aí nas abas de sombrio morro
Abate o vôo, e deixa-me nos braços
Daquela por quem morro.
Bernardo Guimarães
Bastos Tigre - Saudade
Saudade
Infeliz de quem vive sem saudade,
Do agridoce pungir alheio às penas,
Sem lembranças de amor e de amizade,
Hoje vivendo o dia de hoje, apenas.
Triste de ti, ancião, que te condenas
A mole insipidez da ancianidade,
E não revives na memória as cenas
De prazer e de dor da mocidade!
Ter saudade é viver passadas vidas,
Percorrendo paragens preferidas,
Ouvindo vozes que se têm de cor.
Sonha-se… E em sonho, como por encanto,
A dor que nos doeu já não dói tanto,
Gozo que foi é gozo inda maior.
Bastos Tigre
Infeliz de quem vive sem saudade,
Do agridoce pungir alheio às penas,
Sem lembranças de amor e de amizade,
Hoje vivendo o dia de hoje, apenas.
Triste de ti, ancião, que te condenas
A mole insipidez da ancianidade,
E não revives na memória as cenas
De prazer e de dor da mocidade!
Ter saudade é viver passadas vidas,
Percorrendo paragens preferidas,
Ouvindo vozes que se têm de cor.
Sonha-se… E em sonho, como por encanto,
A dor que nos doeu já não dói tanto,
Gozo que foi é gozo inda maior.
Bastos Tigre
Saudade - João de Deus
Saudade
Tu és o cálix;
Eu, o orvalho!
Se me não vales,
Eu o que valho?
Eu se em ti caio
E me acolheste
Torno-me um raio
De luz celeste!
Tu és o collo
Onde me embalo,
E acho consolo,
Mimo e regalo:
A folha curva
Que se aljofara,
Não d'agoa turva,
Mas d'agoa clara!
Quando me passa
Essa existencia,
Que é toda graça,
Toda innocencia,
Além da raia
D'este horizonte—
Sem uma faia,
Sem uma fonte;
O passarinho
Não se consome
Mais no seu ninho
De frio e fome,
Se ella se ausenta,
A boa amiga,
Ah! que o sustenta
E que o abriga!
Sinto umas magoas
Que se confundem
Com as que as agoas
Do mar infundem!
E quem um dia
Passou os mares
É que avalia
Esses pezares!
Só quem lá anda
Sem achar onde
Sequer expanda
A dôr que esconde;
Longe do berço,
Morrendo á mingoa,
Paiz diverso...
Diversa lingoa...
Esse é que sabe
O meu tormento,
Mal se me acabe
Aquelle alento!
Ah, nuvem branca
Ah, nuvem d'oiro!
Ninguem me estanca
Amargo choro;
E assim que passes
Mesmo de largo...
Vê n'estas faces
Se ha pranto amargo.
Tu és o norte
Que me desvias
De ir dar á morte
Todos os dias;
A larga fita
Que d'alto monte
Cerca e limita
O horizonte!
Tu és a praia
Que eu sollicito!
Tu és a raia
D'este infinito!
Se ha uma gruta
Onde me esconda
Á força bruta
Que traz a onda;
Á força immensa
D'esta corrente
D'alma que pensa,
Alma que sente;
Se ha uma véla,
Se ha uma aragem,
Se ha uma estrella,
N'esta viagem...
É quem eu amo,
A quem adoro!
E por quem chamo!
E por quem choro!
João de Deus
Eu, o orvalho!
Se me não vales,
Eu o que valho?
Eu se em ti caio
E me acolheste
Torno-me um raio
De luz celeste!
Tu és o collo
Onde me embalo,
E acho consolo,
Mimo e regalo:
A folha curva
Que se aljofara,
Não d'agoa turva,
Mas d'agoa clara!
Quando me passa
Essa existencia,
Que é toda graça,
Toda innocencia,
Além da raia
D'este horizonte—
Sem uma faia,
Sem uma fonte;
O passarinho
Não se consome
Mais no seu ninho
De frio e fome,
Se ella se ausenta,
A boa amiga,
Ah! que o sustenta
E que o abriga!
Sinto umas magoas
Que se confundem
Com as que as agoas
Do mar infundem!
E quem um dia
Passou os mares
É que avalia
Esses pezares!
Só quem lá anda
Sem achar onde
Sequer expanda
A dôr que esconde;
Longe do berço,
Morrendo á mingoa,
Paiz diverso...
Diversa lingoa...
Esse é que sabe
O meu tormento,
Mal se me acabe
Aquelle alento!
Ah, nuvem branca
Ah, nuvem d'oiro!
Ninguem me estanca
Amargo choro;
E assim que passes
Mesmo de largo...
Vê n'estas faces
Se ha pranto amargo.
Tu és o norte
Que me desvias
De ir dar á morte
Todos os dias;
A larga fita
Que d'alto monte
Cerca e limita
O horizonte!
Tu és a praia
Que eu sollicito!
Tu és a raia
D'este infinito!
Se ha uma gruta
Onde me esconda
Á força bruta
Que traz a onda;
Á força immensa
D'esta corrente
D'alma que pensa,
Alma que sente;
Se ha uma véla,
Se ha uma aragem,
Se ha uma estrella,
N'esta viagem...
É quem eu amo,
A quem adoro!
E por quem chamo!
E por quem choro!
João de Deus
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