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Um monologo de Deus - Anand Dilvar

Este texto tem sido atribuído a Spinoza, no entanto o mesmo foi escrito por Francisco Javier Ángel Real, que é conhecido pelo pseudônimo de Anand Dilvar.

Deus monologando para você 

"Pára de ficar rezando e batendo no peito!

O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida.

Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que

Eu fiz para ti. Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa.

Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias.

Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti. Pára de me culpar da tua vida miserável:

Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau.

O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria.

Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer. Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo.

Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho...

Não me encontrarás em nenhum livro!

Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho? Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo.

Eu sou puro amor. Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar.

Se Eu te fiz... Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio.

Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti?

Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez?

Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade?

Que tipo de Deus pode fazer isso? Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti.

Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti.

A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia.

Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso.

Esta vida é a única que há aqui e agora, e a única que precisas.

Eu te fiz absolutamente livre. Não há prêmios nem castigos.

Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro.

Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.

Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho.

Viva como se não o houvesse.

Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir.

Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei.

E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não.

Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste... Do que mais gostaste? O que aprendeste? Pára de crer em mim - crer é supor, adivinhar, imaginar.

Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti.

Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar. Pára de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas
que Eu seja?

Me aborrece que me louvem. Me cansa que agradeçam.

Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo.

Te sentes olhado, surpreendido?... Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar. Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim.

A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas.

Para que precisas de mais milagres?

Para que tantas explicações?

Não me procures fora! Não me acharás. Procura-me dentro de ti...  aí é que estou."

 Anand Dilvar

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Einstein, quando perguntado se acreditava em Deus, respondeu:

"Acredito no Deus de Spinoza, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe."


Velhas Árvores - Olavo Bilac

Velhas Árvores

Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores novas, mais amigas:
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...

O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem:

Na glória da alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

Olavo Bilac


Murilo Vilela - Canção para o Tocantins

Canção Para o Tocantins

Tocantins, rio beleza
Que a natureza
Fez pra mim

Fez pra você
Pra todos nós
Para teus olhos
Pra minha voz

Rio que leva meu coração
Brilhando cristais
Entre os mananciais
Do meu belo torrão.

Saudades levadas
Em teus paredões
Amores de areia
Eternas canções
Que nascem das águas
Em tuas manhãs.

E o que vento que afaga
As ondas e a gente
É um sopro de vida
É abraço envolvente
Na visão encantada
Das belas Correntes

E as águas que chegam
Ou as águas que passam
São amores que nascem
Ou ilusões que esfumaçam.
Somos nós e o rio
Que em espumas se abraçam

Tocantins, meu tocantins
De água, pedra e areia
É feito o teu coração.
Deixa que fique gravado
No teu mais profundo leito
Este amor que vem do peito
Nos versos desta canção.

Murilo Bahia Brandão Vilela

O coco que eu quero - Lilia Diniz

O coco que eu quero

Coco em florada
esperança alimentada.
Coco nascido
sonho parido.
Coco no cacho
olhar embaixo.
Coco no chão
certeza do pão.
Coco quebrado
bucho calado.
Coco torrado
di cumer temperado.

(Lilia Diniz)







O Bem-Te-Vi - (Dinho Kamers)

O Bem-Te-Vi


...E no meio
daquela floresta,
do pouco verde
que ainda resta,
um bem-te-vi
espiáva-me.
E eu,
observando,
tentando me esconder...
Enquanto ele,
meio que brincando,
à sorrir
parecia me dizer:
bem-te-vi !
bem-te-vi !

(Dinho Kamers)

Galope a beira do fim - Félix Rodrigues Neto

Galope a beira do fim
Autor: Félix Rodrigues Neto

Eu queria viver a alegria
desses tempos que passam num segundo
velejar sobre o mares desse mundo
sem passar pelas ilhas da agonia
sassiar os desejos de Maria
purificar toda água desse mar
deixar uma semente em meu lugar
pra progredir e fazer um novo tempo
sem rascunho e sem cópias dos invento
que os homens da terra querem usar

Quem me dera se eu fosse um soberano
Pra prender e castigar os maus feitores
que se passam nesta vida por doutores
e comete o mesmo erro a cada ano
no avanço da ciência um engano
onde o homem passa anos a pesquisar
a maneira mais fácil de acabar
com essa grande maravilha natureza
procurando sua morte ou sua defeza
nos princípios de uma guerra nuclear

Veja bem como e linda a natureza
mas o homem é seu maior inimigo
se alimenta, respira e faz abrigo
e desfruta de sua grande riqueza
em troca de sua maior beleza
lhe desmata, toca fogo e vai embora
destruindo aos pouquinho a fauna e a flora
como se fosse ele quem a criou
desafiando as leis do criador
e pensa que niguém o ignora

Qualquer dia me sinto satisfeito
quando o homem conseguir se acabar
sei que vamos todos juntos pelo ar
numa nuvem compacta sem defeito
transformados em partículas por efeito
de um débil mental sem conciência
em querer dominar toda ciência
existentes pela lei da natureza
sabendo que no meio dessa grandeza
somos todos iguais por procedência

Félix Rodrigues Neto


Pedaço do mundo - Belinha Neves

Pedaço do mundo

Quero beber a luz que vitaliza,
quero abraçar a lua cheia e a brisa,
quero beijar a mata não pisada,
quero engolir o rio e a madrugada.

Quero apagar a dor mais traiçoeira,
quero limpar o poço e a poeira,
quero matar o algoz que me tortura,
quero lavar da mente esta loucura.

Quero descer a escada não pisada
e cultivar o solo, de mãos dadas:
desnudar os mistérios, um a um,
e ser uma planta de raiz comum.


Isabel Dias Neves (Belinha)

A terra pede socorro - João Gomes Sobrinho (xexéu)

A terra pede socorro

Quando eu era menino
O transporte que havia
Não tinha caixa de macha
Volante nem bateria
Nem queimava combustível
Nem gente nele morria.

O carro que existia
Era feito de madeira
Puxado por uma jumenta
De boi manso de primeira
Chegava onde queria
Sem precisar de carreira.

Levava carga pra feira
Numa macha compassada
Na maior tranqüilidade
Sonorizando a toada
Com dois discos de madeira
Na vitrola da estrada.

Quanto mais carga pesada
Mais estridente cantava
O compasso da cantiga
A boiada acompanhava
Com tanta suavidade
O carreiro cochilava.

Combustível não usava
Nem tinha poluição
O carreiro dirigia
Com uma vara-de-ferrão
Como que fosse um chofer
Dirigindo a direção.

Surgiu a evolução
Trazendo carro a motor
Gerando poluição
Tragédia, espanto e horror
Até que tirou de linha
Nosso carro cantador.

A tarde muda de cor
Assistindo a despedida
Do sol que parte deixando
Numa nuvem colorida
Um poema de saudade
Para a tradição falida.

A natureza convida
O poeta sonhador
Para contemplar os quadros
Feito pelo criador
Dos quais o homem moderno
Tornou-se destruidor.

Cadê aquele rumor
Que o vento brando fazia
Principalmente à tardinha
Ou amanhecer do dia
Que é mormaço quente
Em vez da brisa macia.

Onde foi mata sombria
Hoje é solo esturricado
A selva foi destruída
Pelo gume do machado
Aonde era a cascata
Resta o rochedo escalvado.

O homem modernizado
Tem tudo pra fazer guerra
Estudando a mecânica
Inventou o motor-serra
Tirando a vida da fauna
Do vegetal e da terra.

Sobra para quem não erra
Tudo quanto é malvadeza
Quem opera o motor-serra
Não avalia a tristeza
Que mata a fauna e a flora
Sem poder fazer defesa.

Poluindo a correnteza
Da água pura do rio
Vive o homem contra Deus
Num tremendo desafio
Do frio fazendo quente
Do quente fazendo frio.

Deus fez o globo sadio
Para todos os viventes
O homem contaminou
Com diversos poluentes
Agora está o planeta
E todos nós decadentes.

Reuniu-se os concorrentes
Da destruição total
Estudando vários meios
De plano material
Vê se consegue sanar
O aquecimento global.

Ligado no capital
Sem ter deus no coração
As indústrias fumaçando
E armas de explosão
É muito difícil gente
Encontrar resolução.

Com essa manutenção
Agride o meio-ambiente
Igual veneno no solo
Na lavoura e na semente
O que a terra vem sofrendo
Não há planeta que agüente.

Economia crescente
Ganância pelo poder
Bombas, armas e indústria
Para mais desenvolver
Como salvar-se o planeta
Sem isso retroceder.

Precisa o homem entender
Que a nódoa que se acha
Circulada no planeta
Não se apaga com borracha
Sem toda poluição
Não diminuir a macha.

Para amenizar a taxa
Quem foi que já impatou
As indústrias fumaçarem
Ou quem foi que já parou
Disparo de arma e bomba
Que até hoje não mudou.

O planeta suportou
O dilúvio universal
Depois as águas escoaram
O globo ficou normal
Pelo o supremo poder
De Deus Pai Celestial.

O homem material
Sem Deus não está com nada
Devia estudar agora
Sua ciência avançada
Nesse clima tão carente
Que a terra está sufocada.

Leia a Bíblia Sagrada
Com toda dedicação
Com o coração contrito
Ore a Deus, peça perdão
Em nome de Jesus Cristo
Que salve a situação.

Não é com desunião
Com orgulho e prepotência
Com política bagunçada
E falta de consciência
Que a gente salva o planeta
Que está pedindo clemência.

Quem sofre por inocência
É digno de piedade
A terra, a flora e a fauna
Suplica por caridade
Chega de tanto egoísmo
E tanta perversidade.

Com especialidade
Deus em primeiro lugar
Devemos buscar a ele
Que fez a terra e o mar
Com tudo quanto existe
Para o homem preservar.

Não para esculhambar
Como o homem está fazendo
O ar todo poluído
A água do mar crescendo
A floresta ardendo em chamas
E o gelo se derretendo.

A fauna a toda morrendo
No solo desprotegido
O peixe contaminado
Com o rio poluído
O responsável por isso
Merece ou não ser punido?

O dia está amanhecendo
Vamos todos despertar
Sem a voz do passarinho
Que não conseguiu voar
Sobre as chamas do incêndio
Dos vegetais do pomar.

Não dá mais para esperar
A terra já deu sinal
Vamos cuidar do planeta
Que está passando mal
Por nossa causa sofrendo
Aquecimento global.

Defendendo cada qual
O clima do seu setor
Com responsabilidade
De um ótimo zelador
Vamos trabalhar a bem
De um futuro promissor.

Como simples trovador
Peço Agora humildemente
Através desses meus versos
Que toda classe de gente
Em nome da natureza
Respeite o meio ambiente.

João Gomes Sobrinho (xexéu)


Chuva - Sebastiana Guimarães

Chuva

Abençoada seja a chuva
Que cai e molha o chão 
Regando as sementes
Que nos darão o pão 
Caia sempre sobre nós 
E nos traga a salvação

Sebastiana Guimarães 
Tocantinópolis,20/12/2013

Terra - Francisco Joaquim Bingre

Terra

Ó Terra, amável mãe da Natureza!
Fecunda em produções de imensos entes,
Criadora das próvidas sementes
Que abastam toda a tua redondeza!

Teu amor sem igual, sem par fineza,
Teus maternais efeitos providentes
Dão vida aos seres todos existentes,
Dão brio, dão vigor, dão fortaleza.

Tu rasgas do teu corpo as grossas veias
E as cristalinas fontes de água pura
Tens, para a nossa sede, sempre cheias.

Tu, na vida e na morte, com ternura
Amas os filhos teus, tu te recreias
Em lhes dar, no teu seio, a sepultura.

Francisco Joaquim Bingre

Luís de Camões - De quantas graças tinha, a Natureza

De quantas graças tinha, a Natureza

De quantas graças tinha, a Natureza
Fez um belo e riquíssimo tesouro,
E com rubis e rosas, neve e ouro,
Formou sublime e angélica beleza.

Pôs na boca os rubis, e na pureza
Do belo rosto as rosas, por quem mouro;
No cabelo o valor do metal louro;
No peito a neve em que a alma tenho acesa.

Mas nos olhos mostrou quanto podia,
E fez deles um sol, onde se apura
A luz mais clara que a do claro dia.

Enfim, Senhora, em vossa compostura
Ela a apurar chegou quanto sabia
De ouro, rosas, rubis, neve e luz pura.

Luís de Camões


Fogo - Francisco Joaquim Bingre

Fogo

Faísca luminar da etérea chama
Que acendes nossa máquina vivente,
Que fazes nossa vista refulgente
Com eléctrico gás, com subtil flama:

A nossa construção por ti se inflama;
Por ti, o nosso sangue gira quente;
Por ti, as fibras tem vigor potente,
Teu vivo ardor por elas se derrama.

Tu, Fogo animador, nos vigorizas,
E à maneira de um voltejante rio,
Por todo o nosso corpo te deslizas.

O homem, só por ti tem força e brio
Mas, se tu o teu giro finalizas,
Quando a chama se apaga, ele cai frio.

Francisco Joaquim Bingre

Poema A vida - Olavo Bilac


A Vida

Na água do rio que procura o mar;
No mar sem fim; na luz que nos encanta;
Na montanha que aos ares se levanta;
No céu sem raias que deslumbra o olhar;

No astro maior, na mais humilde planta;
Na voz do vento, no clarão solar;
No inseto vil, no tronco secular,
— A vida universal palpita e canta!

Vive até, no seu sono, a pedra bruta...
Tudo vive! E, alta noite, na mudez
De tudo, – essa harmonia que se escuta

Correndo os ares, na amplidão perdida,
Essa música doce, é a voz, talvez,
Da alma de tudo, celebrando a Vida!

Olavo Bilac


Inverno - Francisco Joaquim Bingre

Inverno

Já na quarta estação final da vida
Estou, do triste Inverno rigoroso.
Fustigado do tempo borrascoso,
Co'a saraiva das asas sacudida.

Gelada tenho a fronte encanecida,
O sangue frio, pálido e soroso.
Compresso está o físico nervoso
E a máquina de todo enfraquecida.

Nesta quadra da fúnebre tristeza,
Que alegria terei na sombra escura,
Se enlutada se vê a Natureza?

Só, c'os frutos da má agricultura,
Vago triste no espaço da incerteza
De que a Morte me dê melhor ventura.

Francisco Joaquim Bingre

Do outono e do silêncio - Álvaro Moreyra

Do outono e do silêncio

Ah! como eu sinto o Outono
nesses crepúsculos dispersos,
de solidão e de abandono...
nessas nuvens longínquas, agoureiras,
que têm a cor que um dia houve em meus versos
e nas tuas olheiras...

Tomba uma sombra roxa sobre a Terra...
A mesma nuança, em torno, tudo encerra
nuns tons fanados de ametista...
Paisagem morta, evocativa, doce...
como se o Ocaso fosse
um pintor simbolista...

Caem violetas...

Canta uma voz, distante...

E a luz vai a fugir, esfacelando
em trêmulas silhuetas
os troncos da alameda agonizante...

O Outono é uma elegia
que as folhas plangem, pelo vento, em bando...
E o Outono me endolara e anestesia
com a saudade remota do silêncio...
Silêncio vesperal das ressonâncias
esquecidas
que o Ângelus lento deixa sempre no ar...
Silêncio
irmão das covas, das ermidas...
incenso das distâncias...
onde a memória fica a ouvir perdidas
palavras que morreram sem falar...

E do silêncio em névoas esgarçado,
a cuja extrema sugestão me abrigo,
tu te evolas, dolente,
tal uma hora feliz de tempo alado
que às vezes brota de repente
de um velho aroma ou de acorde antigo...

Álvaro Moreyra


A serenata - Augusto de Lima

A SERENATA

A.D. Olga de Suckow

Plenilunio de Maio em montanhas de Minas!
Canta, ao longe, uma flauta e um violoncello chora.
Perfuma-se o luar nas flôres das campinas,
subtilisa-se o aroma em languidez sonora.

Ao doce encantamento azul das cavatinas,
nessas noutes de luz mais bellas do que a aurora,
as errantes visões das almas peregrinas
vão voando a cantar pela amplidão afôra...

E chora o violoncello e a flauta, ao longe, canta.
Das montanhas, cantando, a nevoa se levanta,
banhada de luar, de sonhos, de harmonia.

Com profano rumor, porém, desponta o dia,
e na ultima porção da nevoa transparente
a flauta e o violoncello expiram lentamente.

Augusto de Lima