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A rosa - Carolina Maria de Jesus


A rosa

Eu sou a flor mais formosa
Disse a rosa
Vaidosa!
Sou a musa do poeta.


Por todos sou contemplada
E adorada.

A rainha predileta.
Minhas pétalas aveludadas
São perfumadas
E acariciadas.

Que aroma rescendente:
Para que me serve esta essência,
Se a existência
Não me é concernente...

Quando surgem as rajadas
Sou desfolhada
Espalhada
Minha vida é um segundo.
Transitivo é meu viver
De ser...
A flor rainha do mundo.

Carolina Maria de Jesus


As flores de laranja - Pedro de Calasans

As flores de laranja

Cada flôr tem de certo varia sorte,
Tem diverso condão:
Ha flores para a vida e para a morte,
Que dizem sim, ou não.

Ha flores para as maguas da anciedade,
Para os sonhos de amor,
Ha flores para as scismas da saudade,
Ha tambem para a dor.

Ha flores que só vingam no chão frio
Da fria sepultura,
Borrifadas das lagrimas a fio
Que chora a desventura.

Ha flores que só crescem no retiro
De amiga solidão ;
Uma flor diz um ai, outra um suspiro,
Todas têm seu condão.

Esta vai perfurmar as lindas jarras
Dos altares radiantes ;
Aquella ser de amor propicias arrhas
No peito dos amantes.

Alli—campeia altiva uma fronte
Do bravo que venceu;
Acolá—sobre a face bella, insonte,
Da virgem que morreu.

Além—sobre os degráos do capitolio,
Nos penetraes da gloria ;
Aquem—cobrindo o desditoso espolio,
De um genio, e a sua historia !

Cada flor tem de certo varia sorte,
Tem diverso condão:
Ha flores para a vida e para a morte,
Que dizem sim, ou não.

Mas de todas as flores mais felizes,
As que têm melhor sina,
Não são as rosas, nem jasmins, nem lizes,
Nem d’halias, nem bonina.

As flores de laranja mais ditosas
Que as outras flores são :
Tem mais poesia, tem ! São mais cheirosas,
Tem mais inspiração !

As flores de laranja se entrelaçam,
Na virginal capella !
De perfume suavissimo repassam
O seio da donzella !

Das essencias de amor sublime extracto
Sublime é o condão seu :
Fel-as Deus para honrar o doce pacto
Do sagrado hymeneu.

Por isso eu amo a flor de laranjeira
Da donzella na coma,
Ou então quando a brisa passageira
Me traz seu doce aroma.

Amo a flor de laranja, quando a avisto
N’um seio de mulher !
Quando a noite me toma de inprevisto,
Ou d’alva o rosicler.

Amo-a, quando a donzella meiga a esfolha
Em pura distração,
Ou com o pranto dos olhos seus a molha,
Abrindo o coração.

No teu album, portanto, eu quiz as flores
De laranja depor :
Synthese bella de ideaes amores,
Dos amores a flor.

E a tua mão, formosa Therezinha,
Que mil graças esbanja,
Aceite a triste, a pobre offerta minha
De flores de laranja.

Pedro de Calasans


Quando vier a primavera - Fernando Pessoa

Quando vier a primavera

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro
Heterónimo de Fernando Pessoa


As Flores - Olavo Bilac

 As Flores

Deus ao mundo deu a guerra,
A doença, a morte, as dores;
Mas, para alegrar a terra,
Basta haver-lhe dado as flores.

Umas, criadas com arte,
Outras, simples e modestas,
Há flores por toda a parte
Nos enterros e nas festas,

Nos jardins, nos cemitérios,
Nos paúes e nos pomares;
Sobre os jazigos funéreos,
Sobre os berços e os altares,

Reina a flor! pois quis a sorte
Que a flor a tudo presida,
E também enfeite a morte,
Assim como enfeita a vida.

Amai as flores, crianças!
Sois irmãs nos esplendores,
Porque há muitas semelhanças
Entre as crianças e as flores...

Olavo Bilac

A fonte e a flor - Vicente de Carvalho

A fonte e a flor

"Deixa-me, fonte!" Dizia
A flor, tonta de terror.
E a fonte, sonora e fria
Cantava, levando a flor.

"Deixa-me, deixa-me, fonte!"
Dizia a flor a chorar:
"Eu fui nascida no monte...
"Não me leves para o mar."

E a fonte, rápida e fria,
Com um sussurro zombador,
Por sobre a areia corria,
Corria levando a flor.

"Ai, balanços do meu galho,
"Balanços do berço meu;
"Ai, claras gotas de orvalho
"Caídas do azul do céu!..."

Chorava a flor, e gemia,
Branca, branca de terror.
E a fonte, sonora e fria,
Rolava, levando a flor.

"Adeus, sombra das ramadas,
"Cantigas do rouxinol;
"Ai, festa das madrugadas,
"Doçuras do pôr-do-sol;

"Carícias das brisas leves
"Que abrem rasgões de luar...
"Fonte, fonte, não me leves,
"Não me leves para o mar!"

As correntezas da vida
E os restos do meu amor
Resvalam numa descida
Como a da fonte e da flor...

Vicente de Carvalho

AS ROSAS

As rosas

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.



Sophia de Mello Breyner Andresen

 

Poema da Flor lilás

Flor lilás

Uma flor tão linda e diferente
é ela meu segredo maior
por quem suspiro loucamente
de mim sempre tem o melhor
tudo a ela entrego cegamente
ainda assim me sinto só

Quanto mais a ti admiro
linda flor que vida me traz
acordo, vivo e suspiro
pelo doce bem que me faz
não importa o meu delirio
Eu te amo minha flor lilás

Autor desconhecido





Poemas de Machado de Assis - Livros e flores

 Livros e flores

Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor?

Flores me são teus lábios.
Onde há mais bela flor,
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?

Machado de Assis


Ana Cristina Cesar - Flores do mais

Flores do mais

devagar escreva
uma primeira letra
escreva
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais


Ana Cristina Cesar


A rosa dos bosques - Francisco Leite de Bittencourt Sampaio

A rosa dos bosques

Andava um caçador, ao sol do meio dia,
Alva corsa á seguir, que rapida fugia
Por entre um matagal;
Ao longe ele avistou vermelha e linda rosa,
Que excedendo a manhã na rubra côr mimosa
Sorria festival.

«Seràs minha!» bradou, e já largando
Arco e flecha no chão,
Vai em busca da flor; — ella corando
Fez-se então mais vermelha,
Como se acaso abelha
O caçador lhe fosse, ou um zangão.

Eis passa-lhe perto
A corça á correr;
E o moço inexperto
Alli no deserto
Deixou de acolher.

Mas voltando atraz agora
Seu arco e flecha apanhou;
Procura a flor que o enamora,
E de longe assim fallou:

«Já que perdi minha corça,
Uma rosa hei de apanhar ;
Levar-te-hei mesmo a força,
Que bem sei me has de picar.»

E para a flor se encaminha,
Correndo alegre e infantil:
«Reza! reza! serás minha!»
Era a rosa India gentil.

Francisco Leite de Bittencourt Sampaio


Flores - Auta de Souza

Flores

Quando começa a raiar
O dia cheio de amor,
Eu gosto de contemplar
O coração de uma flor,

Desmaiada e tremulante,
Pendendo triste no galho,
Tendo o pistilo brilhante
Embalsamado de orvalho:

A rosa só me parece,
Assim tão casta e sem véu,
Um anjo rezando a prece
Um’alma voando ao Céu.

Do jasmim puro e mimoso,
A corola embranquecida,
É como um seio formoso
De criança adormecida.

Esqueço-me, então, das horas
A contemplar estas flores,
As violetas, auroras,
Saudades, lindos amores.


Auta de Souza

A Rosa - Bocage

A Rosa

Tu, flor de Vénus,
Corada Rosa,
Leda, fragrante,
Pura, mimosa,

Tu, que envergonhas
As outras flores,
Tens menos graça
Que os meus amores.


Tanto ao diurno
Sol coruscante
Cede a nocturna
Lua inconstante,

Quanto a Marília
Té na pureza
Tu, que és o mimo
Da Natureza.

O buliçoso,
Cândido Amor
Pôs-lhe nas faces
Mais viva cor;

Tu tens agudos
Cruéis espinhos,
Ela suaves
Brandos carinhos;

Tu não percebes
Ternos desejos,
Em vão Favónio
Te dá mil beijos.

Marília bela
Sente, respira,
Meus doces versos
Ouve, e suspira.

A mãe das flores,
A Primavera,
Fica vaidosa
Quando te gera;

Porém Marília
No mago riso
Traz as delícias
Do Paraíso.

Amor que diga
Qual é mais bela,
Qual é mais pura,
Se tu, ou ela;

Que diga Vénus...
Ela aí vem...
Ai! Enganei-me,
Que é o meu bem.

Bocage


A duas flores - Castro Alves

A duas flores

São duas flores unidas,

São duas rosas nascidas
Talvez no mesmo arrebol,
Vivendo no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.

Unidas, bem como as penas
Das duas asas pequenas
De um passarinho do céu...
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.

Unidas, bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar...
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.

Unidas... Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!

Castro Alves



Tua alma! em flores - Manuel de Oliveira Paiva

Tua alma! em flores

A candidez do jasmim
Com os pudores da rosa
E os cantos de um querubim


Tu tens nos lábios, formosa,
Nesse teu sorrir sem fim
Que arrebata, que endeusa.

E tua alma é também flores
Adorantes, sensuais:
Fecunda como os amores
De nossos primeiros pais:

As vozes das virgens puras,
Em coro, formam no espaço
De flores celestes laço
Onde prendem-se as venturas.


Manuel de Oliveira Paiva


A Vida tem dois caminhos - Adelmar Tavares

A Caminhos Vida TEM Dois

A Vida Caminhos TEM Dois.
Hum, todo Cheio de flores,
Cheio de tarefas, Outro, de Espinhos ...

Uns Pela estrada florida,
passam, Bem Longe das Dores,
Só tendão de flores na Vida.

To Us Link, Bem tristes, se Vao,
trazendo OS PES Nos Espinhos,
Espinhos e no Coração.

*

Deus! Senhor dos Dois Caminhos
da Vida Que a Gente Trilha,
TEM pena de Minha Filha,
da Filha de meus amores
Que É TÃO pequenina, ASSIM ...
Junca-LHE a estrada de flores!
Deixa Espinhos parágrafo MIM!

(Luz dos Olhos MEUS, Myriam, 1912)

Adelmar Tavares

fonte: www.academia.org.br

Flor Carnívora - Augusto de Lima

FLOR CARNÍVORA

A Lucindo Filho.

Há uma flor de lindo aspecto
e colorido brilhante,
cujo perfume fragrante
atrai ao cálix o inseto.

As asas fechando e abrindo,
este o mel nectáreo bebe,
no entanto a flor o recebe,
as pétalas contraindo.

Contrai-se e se abotoa,
e tanto os nervos constringe
que a corola o suor tinge
da seiva fecunda e boa.

E na rescendente cela
o aventureiro encerrado,
depois de a flor ter sugado,
ei-lo sugado por ela.

Tal a sorte da alma louca,
que atraída pelo gozo,
o doce filtro amoroso
vai beber em tua boca.

Pois és a imagem exata
da bela flor assassina,
que melifica e fascina,
perfuma, seduz e mata.

Augusto de Lima



O Beija-Flor - Auta de Souza

O Beija-Flor

Acostumei-me a vê-lo todo o dia
De manhãzinha, alegre e prazenteiro,
Beijando as brancas flores de um canteiro
No meu jardim - a pátria da ambrosia.


Pequeno e lindo, só me parecia
Que era da noite o sonho derradeiro...
Vinha trazer às rosas o primeiro
Beijo do Sol, n’essa manhã tão fria!

Um dia, foi-se e não voltou... Mas, quando
A suspirar, me ponho contemplando,
Sombria e triste, o meu jardim risonho...

Digo, a pensar no tempo já passado;
Talvez, ó coração amargurado,

Aquele beija-flor fosse o teu sonho!

Auta de Souza


O Beija-Flor - Leconte de Lisle (traduzido por Pedro II do Brasil)

O Beija-Flor (Título original: Le Colibri)

O verde beija-flor, rei das colinas,
Vendo o rocio e o sol brilhante
Luzir no ninho, trança d'ervas finas,
Qual fresco raio vai-se pelo ar distante.

Rápido voa ao manancial vizinho,
Onde os bambus sussurram como o mar,
Onde o açoká rubro, em cheiros de carinho,
Abre, e eis no peito úmido a fuzilar.

Desce sobre a áurea flor a repousar,
E em rósea taça amor a inebriar,
E morre não sabendo se a pode esgotar!

Em teus lábios tão puros, minha amada,
Tal minha alma quisera terminar,
Só do primeiro beijo perfumada!

Leconte de Lisle


O Relógio - Artur de Azevedo

O Relógio

Quando não vens, formosa desumana,
E, saudoso de ti, sem ti me deito,
Fica tão espaçoso o nosso leito,
Que me parece o campo de Sant'Anna!

Quando não vens, oh! pálida tirana,
Torna-se lúgubre o quartinho estreito!
Com muitas flores, flor, debalde o enfeito:
Falta-lhe a flor das flores soberana.

Artur de Azevedo