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Horizonte - Ivone Boechat

Horizonte

Meu horizonte
não tem limite,
sigo em frente,
depois do horizonte,
se pegar a estrada,
fico acomodada,
não vou chegar,
se pular a cerca,
mesmo que me perca
pra fugir do espinho,
encontro o caminho,
vou me superar.

Ivone Boechat

Rabindranath Tagore - Cântico da Esperança

Cântico da Esperança

Não peça eu nunca
para me ver livre de perigos,
mas coragem para afrontá-los.

Não queira eu
que se apaguem as minhas dores,
mas que saiba dominá-las
no meu coração.

Não procure eu amigos
no campo da batalha da vida,
mas ter forças dentro de mim.

Não deseje eu ansiosamente
ser salvo,
mas ter esperança
para conquistar pacientemente
a minha liberdade.

Não seja eu tão cobarde, Senhor,
que deseje a tua misericórdia
no meu triunfo,
mas apertar a tua mão
no meu fracasso!

Rabindranath Tagore
Tradução de Manuel Simões

Esperança - Miguel Torga

Esperança

Tantas formas revestes, e nenhuma
Me satisfaz!
Vens às vezes no amor, e quase te acredito.
Mas todo o amor é um grito
Desesperado
Que apenas ouve o eco...
Peco
Por absurdo humano:
Quero não sei que cálice profano
Cheio de um vinho herético e sagrado.

Miguel Torga

Machado de Assis - Os Dois Horizontes

Os Dois Horizontes

Dois horizontes fecham nossa vida:

Um horizonte, — a saudade
Do que não há de voltar;
Outro horizonte, — a esperança
Dos tempos que hão de chegar;
No presente, — sempre escuro,—
Vive a alma ambiciosa
Na ilusão voluptuosa
Do passado e do futuro.

Os doces brincos da infância
Sob as asas maternais,
O vôo das andorinhas,
A onda viva e os rosais;
O gozo do amor, sonhado
Num olhar profundo e ardente,
Tal é na hora presente
O horizonte do passado.

Ou ambição de grandeza
Que no espírito calou,
Desejo de amor sincero
Que o coração não gozou;
Ou um viver calmo e puro
À alma convalescente,
Tal é na hora presente
O horizonte do futuro.

No breve correr dos dias
Sob o azul do céu, — tais são
Limites no mar da vida:
Saudade ou aspiração;
Ao nosso espírito ardente,
Na avidez do bem sonhado,
Nunca o presente é passado,
Nunca o futuro é presente.

Que cismas, homem? – Perdido
No mar das recordações,
Escuto um eco sentido
Das passadas ilusões.
Que buscas, homem? – Procuro,
Através da imensidade,
Ler a doce realidade
Das ilusões do futuro.

Dois horizontes fecham nossa vida.

Machado de Assis

Soneto da Perdida Esperança - Carlos Drummond de Andrade

Soneto da Perdida Esperança
Perdi o bonde e a esperança.
Volto pálido para a casa.
A rua é inútil e nenhum auto
passaria sobre meu corpo.

Vou subir a ladeira lenta
em que os caminhos se fundem.
Todos eles conduzem ao
princípio do drama e da flora.

Não sei se estou sofrendo
ou se é alguém que se diverte
por que não? na noite escassa

com um insolúvel flautim
Entretanto há muito tempo
nós gritamos: sim! ao eterno.

Carlos Drummond de Andrade

Esperança - Francisca Júlia

Esperança

A Alarico Silveira


Ela, só ela é boa e piedosa a esperança,
Palma, que, sempre verde, os corações agita,
E, na sua missão de aliviar a desdita,
Enxuga o pranto, ilude a fome, o impulso amansa.

Ela, que é para o velho o que é para a criança,
Ela, que a mão de amiga estende à gente aflita,
Conduz-me para além do que meu sonho alcança,
De região em região, onde outra luz palpita.

É tão boa essa luz, que os calhaus do caminho
Hão de ser, se os houver, macios como arminho,
E de encará-la o meu olhar jamais se furta.

Só não sei em que mundo, em que estrela, em que
[esfera
A verdadeira paz entre bênçãos me espera,
Sei que o caminho é bom e a viagem é tão curta...

Francisca Júlia

A esperança - Luís Delfino

A esperança

Quanta fadiga custa-nos a vida!
Vivemos entre túmulos; vivemos
Num largo mar, em barca ao som de remos
Fechando e abrindo o leque na corrida.

A onda é mansa, a onda é desabrida,
E incerta a praia branca, onde aportemos:
Mas... a que vamos? mas... o que queremos?
Nos chama ao longe alguma voz querida?

Vem talvez lá dos píncaros do monte,
Onde canta a visão de loura trança?
É vapor... voa... foge do horizonte.

Quem olha ao largo outra visão alcança,
Visão formosa!... chega-se defronte,
É nuvem... nuvem... nuvem da esperança...

Luís Delfino