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Olhos verdes - Bernardo Guimarães

Olhos verdes

Eu conheço uns lindos olhos,
Que fazem morrer de amor,
Têm a verde e linda cor
Que tem o mar em bonança.
Ai de mim, que nesses olhos
Hei posto minha esperança!

São brilhantes e formosos
Como dous astros sem véu
A sorrir em puro céu
Em noite serena e mansa.
Mas nesses astros brilhantes
Não vejo luz de esperança.

Já não creio em olhos verdes;
Olhos verdes são traidores,
São fanais enganadores,
Não inspiram confiança.
Sabem só matar de amores
Sem nunca dar esperança.

Antes nunca eu visse os olhos,
Que fazem morrer de amor,
E que têm a linda cor
Que tem o mar em bonança.
Ai de mim, que nesses olhos
Não tenho mais esperança.

Bernardo Guimarães

A Fugitiva - Bernardo Guimarães

A Fugitiva

Eu tenho n'alma um desejo,
Que eu almejo
Linda virgem, revelar-te;
Mas devo guardar segredo;
Tenho medo,
Muito medo de enfadar-te.

Murcha a tenra sensitiva,
Sempre esquiva
Ao toque de minha mão.
Tenho medo, ó virgem bela,
Que, como ela,
Me feches teu coração.

Como a rolinha amorosa,
Que medrosa,
Estremece de pavor,
E logo de susto voa,
Se ressoa
No bosque um leve rumor:

Assim tu, virgem formosa,
Pressurosa.
Assim costumas fugir;
Se este amor, em que deliro,
Um suspiro
Indiscreto vem trair.

Vê, como o lírio singelo,
Puro e belo,
Desabrocha em teu jardim!
Foi criada para amor
Essa flor,
Essa flor tão linda assim.

Se junto dela desliza
Doce brisa,
Toda de amor estremece;
E fagueira e sem queixume
O perfume
De seu cálix lhe oferece.

Se do amor que me consome,
Nem o nome
Tu me queres escutar,
Ensine-te ela o segredo,
Que eu de medo
Mal te posso murmurar.

Mas no véu encantador
Do pudor
Em vão procuras abrigo;
Em qualquer parte que fores,
Os amores
Hão de sempre andar contigo.

Bernardo Guimarães

Trabalho e luz - Bernardo Guimarães

Trabalho e luz

I

Luz e trabalho, eis a divisa imensa
Da nova legião de um mundo novo.
Das águias do porvir fecunde-se o ovo
No vigor do trabalho unido à crença.

D'árvore humanidade à luz intensa
Do livre ensino brota o são renovo
Rico de luz se nobilita o povo
Do trabalho na santa recompensa.

Trabalham para a luz almas, que alentam
O brilho do trabalho. Os benefícios
Da luz da educação a Deus contentam.

Trabalho e luz contra o furor dos vícios,
No trabalho e na luz que a paz sustentam,
Glória ao Liceu de Artes e de Ofícios.

II

Trabalho e luz, mais luz e mais trabalho!
Sem trabalho não pode dar-se a luz,
Ao trabalho preside a diva luz
E de noite sem luz não há trabalho.

O trabalho é saúde, é vida, é luz;
Para ter uma luz, sempre trabalho;
Sai sem luz, todo errado, o meu trabalho,
Pois não há bom trabalho sem a luz.

Ora, a luz sendo o guia do trabalho
Nada faz o trabalho sem a luz,
E nem a luz é nada sem trabalho.

À força do trabalho obtém-se a luz
Mas a luz não resplande sem trabalho
Glória ao trabalho e luz, luz e trabalho.

Bernardo Guimarães


Hino à preguiça - Bernardo Guimarães

Hino à preguiça

Meiga Preguiça, velha amiga minha,
Recebe-me em teus braços,
E para o quente, conchegado leito
Vem dirigir meus passos.

Ou, se te apraz, na rede sonolenta,
À sombra do arvoredo,
Vamos dormir ao som d'água, que jorra
Do próximo rochedo.

Mas vamos perto; à orla solitária
De algum bosque vizinho,
Onde haja relva mole, e onde se chegue
Sempre por bom caminho.

Aí, vendo cair uma por uma
As folhas pelo chão,
Pensaremos conosco: -- são as horas,
Que aos poucos lá se vão. --

Feita esta reflexão sublime e grave
De sã filosofia,
Em desleixada cisma deixaremos
Vogar a fantasia,

Até que ao doce e tépido mormaço
Do brando sol do outono
Em santa paz possamos quietamente
Conciliar o sono.

Para dormir à sesta às garras fujo
Do improbo trabalho,
E venho em teu regaço deleitoso
Buscar doce agasalho.

Caluniam-te muito, amiga minha,
Donzela inofensiva,
Dos pecados mortais te colocando
Na horrenda comitiva.

O que tens de comum com a soberba?...
E nem com a cobiça?...
Tu, que às honras e ao ouro dás as costas,
Lhana e santa Preguiça?

Com a pálida inveja macilenta
Em que é que te assemelhas,
Tu, que, sempre tranqüila, tens as faces
Tão nédias e vermelhas?

Jamais a feroz ira sanguinária
Terás por tua igual,
E é por isso, que aos festins da gula
Não tens ódio mortal.

Com a luxúria sempre dás uns visos,
Porém muito de longe,
Porque também não é do teu programa
Fazer vida de monge.

Quando volves os mal abertos olhos
Em frouxa sonolência,
Que feitiço não tens!... que eflúvios vertes
De mórbida indolência!...

Es discreta e calada como a noute;
És carinhosa e meiga,
Como a luz do poente, que à tardinha
Se esbate pela veiga.

Quando apareces, coroada a fronte
De roxas dormideiras,
Longe espancas cuidados importunos,
E agitações fragueiras;

Emudece do ríspido trabalho
A atroadora lida;
Repousa o corpo, o espírito se acalma,
E corre em paz a vida.

Até dos claustros pelas celas reinas
Em ar de santidade,
E no gordo toutiço te entronizas
De rechonchudo abade.

Quem, senão tu, os sonhos alimenta
Da cândida donzela,
Quando sozinha vago amor delira
Cismando na janela?...

Não é também, ao descair da tarde,
Que o vate nos teus braços
Deixa à vontade a fantasia ardente
Vagar pelos espaços?...

Maldigam-te outros; eu, na minha lira
Mil hinos cantarei
Em honra tua, e ao pé de teus altares
Sempre cochilarei.

Nasceste outrora em plaga americana
À luz de ardente sesta,
Junto de um manso arroio, que corria
À sombra da floresta.

Gentil cabocla de fagueiro rosto,
De índole indolente,
Sem dor te concebeu entre as delícias
De um sonho inconsciente.

E nessa hora as auras nem buliam
Nas ramas do arvoredo,
E o rio a deslizar de vagaroso
Quase que estava quedo.

Calou-se o sabiá, deixando em meio
O canto harmonioso,
E para o ninho junto da consorte
Voou silencioso.

A águia, que, adejando sobre as nuvens,
Dos ares é princesa,
Sentiu frouxas as asas, e do bico
Deixou cair a presa.

De murmurar, manando entre pedrinhas
A fonte se esqueceu,
E nos imóveis cálices das flores
A brisa adormeceu.

Por todo o mundo o manto do repouso
Então se desdobrou,
E até dizem, que o sol naquele dia
Seu giro retardou.

E eu também já vou sentindo agora
A mágica influência
De teu condão; os membros se entorpecem
Em branda sonolência.

Tudo a dormir convida; a mente e o corpo
Nesta hora tão serena
Lânguidos vergam; dos inertes dedos
Sinto cair-me a pena.

Mas ai!... dos braços teus hoje me arranca
Fatal necessidade!...
Preguiça, é tempo de dizer-te adeus,
Ó céus!... com que saudade!

Bernardo Guimarães

Desalento - Bernardo Guimarães

Desalento

Nestes mares sem bonança,
Boiando sem esperança,
Meu baixel em vão se cansa
Por ganhar o amigo porto;
Em sinistro negro véu
Minha estrela se escondeu;
Não vejo luzir no céu
Nenhum lume de conforto.

A tormenta desvairou-me,
Mastro e vela escalavrou-me,
E sem alento deixou-me
Sobre o elemento infiel;
Ouço já o bramir tredo
Das vagas contra o penedo
Onde irá - talvez bem cedo -
Soçobrar o meu batel.

No horizonte não lobrigo
Nem praia, nem lenho amigo,
Que me salve do perigo,
Nem fanal que me esclareça;
Só vejo as vagas rolando,
Pelas rochas soluçando,
E mil coriscos sulcando
A medonha treva espessa.

Voga, baixel sem ventura,
Pela túrbida planura,
Através da sombra escura,
Voga sem leme e sem norte;
Sem velas, fendido o mastro,
Nas vagas lançado o lastro,
E sem ver nos céus um astro,
Ai! que só te resta a morte!

Nada mais ambiciono,
Às vagas eu te abandono,
Como cavalo sem dono
Pelos campos a vagar;
Voga nesse pego insano,
Que nos roncos do oceano
Ouço a voz do desengano
Pavorosa a ribombar!

Voga, baixel foragido,
Voga sem rumo - perdido,
Pelas tormentas batido,
Sobre o elemento infiel;
Para ti não há bonança;
À toa, sem leme avança
Neste mar sem esperança,
Voga, voga, meu baixel!

Bernardo Guimarães

Bernardo Guimarães - Ao cigarro

Ao cigarro

Cigarro, minhas delícias,
Quem de ti não gostarás?
Depois do café, ou chá,
Há nada mais saboroso
Que um cigarro de Campinas
De fino fumo cheiroso?

Cigarro, quanto és ditoso!
Já reinas em todo mundo,
E esse teu vapor jucundo
Por toda parte esvoaça.
Até as moças bonitas
Já te fumam por chalaça !...

Sim; - já por dedos de neve
Posto entre lábios de rosa,
Em gentil boca mimosa
Tu te ostentas com vaidade.
Que sorte digna de inveja!
Que pura felicidade!

Anália, se de teus lábios
Desprendes subtil fumaça,
Ah! tu redobras de graça,
Nem sabes que encantos tens.
À invenção do cigarro
Tu deves dar parabéns.

Qual caçoula de rubim
Exalando âmbar celeste,
Tua boca se reveste
Do mais primoroso chiste.
A tão sedutoras graças
Nenhum coração resiste.

Embora tenha o charuto
Dos fidalgos a afeição,
E do conde ou do barão
Seja embora o favorito;
Mas o querido do povo
Es tu só, meu cigarrito.

Quem pode ver sem desgosto,
Esse charuto tão grosso,
Esse feio e negro troço
Nos lábios da formosura?...
E uma profanação,
Que o bom gosto não atura.

Mas um cigarrinho chique,
Alvo, mimoso e faceiro,
A um rostinho fagueiro
Dá realce encantador.
E incenso que vapora
Sobre os altares de amor.

O cachimbo oriental
Também nos dá seus regalos;
Porém nos beiços faz calos,
E nos faz a boca torta.
De tais canudos o peso
Não sei como se suporta!...

Deixemos lá o grão-turco
No tapete acocorado
Com seu cachimbo danado
Encher as barbas de sarro.
Quanto a nós, ó meus amigos,
Fumemos nosso cigarro.

Cigarro, minhas delicias,
Quem de ti não gostará?
Certo no mundo não há
Quem negue tuas vantagens.
Todos às tuas virtudes
Rendem cultos e homenagens.

És do bronco sertanejo
Infalível companheiro;
E ao cansado caminheiro
Tu és no pouso o regalo;
Em sua rede deitado
Tu sabes adormentá-lo.

Tu não fazes distinção,
És do plebeu e do nobre,
És do rico e és do pobre,
És da roça e da cidade.
Em toda a extensão professas
O direito de igualdade.

Vem pois, ó meu bom amigo,
Cigarro, minhas delícias;
Nestas horas tão propícias
Vem dar-me tuas fumaças.
Dá-mas em troco deste hino,
Que fiz-te em ação de graças.


Bernardo Guimarães


Amor ideal - Bernardo Guimarães

Amor ideal

Há uma estrela no céu
Que ninguém vê, senão eu
(Garrett)

Quem és? - d'onde vens tu?
Sonho do céu, visão misteriosa,
Tu, que assim me rodeias de perfumes
De amor e d'harmonia?

Não és raio d'esp'rança
Enviado por Deus, ditamno puro
Por mãos ocultas de benigno gênio
No peito meu vertido?

Não és anjo celeste,
Que junto a mim, no adejo harmonioso
Passa, deixando-me a alma adormecida
Num êxtase de amor?

Ó tu, quem quer que sejas, anjo ou fada,
Mulher, sonho ou visão,
Inefável beleza, sê bem-vinda
Em minha solidão!

Vem, qual raio de luz dourando as trevas
De um cárcere sombrio,
Verter doce esperança neste peito
Em minha solidão!

Nosso amor é tão puro! - antes parece
A nota aérea e vaga
De ignota melodia, êxtase doce,
Perfume que embriaga!...

Amo-te como se ama o albor da aurora,
O claro azul do céu,
O perfume da flor, a luz da estrela,
Da noite o escuro véu.

Com desvelo alimento a minha chama
Do peito no sacrário,
Como sagrada lâmpada, que brilha
Dentro de um santuário.

Sim; a tua existência é um mistério
A mim só revelado;
Um segredo de amor, que trarei sempre
Em meu seio guardado!

Ninguém te vê; - dos homens te separa
Um véu misterioso,
Em que modesta e tímida te escondes
Do mundo curioso.

Mas eu, no meu cismar, eu vejo sempre
A tua bela imagem;
Ouço-te a voz trazida entre perfumes
Por suspirosa aragem.

Sinto a fronte incendida bafejar-me
Teu hálito amoroso,
E do cândido seio que me abrasa
O arfar voluptuoso.

Vejo-te as formas do donoso corpo
Em vestes vaporosas,
E o belo riso, e a luz lânguida e meiga
Das pálpebras formosas!

Vejo-te sempre, mas ante mim passas
Qual sombra fugitiva,
Que me sorriu num sonho, e ante meus olhos
Desliza sempre esquiva!

Vejo-te sempre, ó tu, por quem minh'alma
De amores se consome;
Mas quem tu sejas, qual a pátria tua,
Não sei, não sei teu nome!

Ninguém te viu sobre a terra,
És filha dos sonhos meus:
Mas talvez, talvez que um dia
Te eu vá encontrar nos céus.

Tu não és filha dos homens,
Ó minha celeste fada,
D'argila, d'onde nascemos,
Não és decerto gerada.

Tu és da divina essência
Uma pura emanação,
Ou um eflúvio do elísio
Vertido em meu coração.

Tu és dos cantos do empíreo
Uma nota sonorosa,
Que nas fibras de minh'alma
Ecoa melodiosa;

Ou luz de benigna estrela
Que doura-me a triste vida,
Ou sombra de anjo celeste
Em minha alma refletida.

Enquanto vago na terra
Gomo mísero proscrito,
E o espírito não voa
Para as margens do infinito,

Tu apenas me apareces
Como um sonho vaporoso,
Ou qual perfume que inspira
Um cismar vago e saudoso;

Mas quando minh'alma solta
Desta prisão odiosa
Vaguear isenta e livre
Pela esfera luminosa,

Irei voando ansioso
Por esse espaço sem fim,
Até pousar em teus braços,
Meu formoso Querubim.

Bernardo Guimarães

Saudade - Bernardo Guimarães

Saudade

Vem, ó saudade, toma-me em teu carro,
Em teu regaço leva-me dormindo,
Entre fagueiros sonhos embalado
Por esse espaço infindo.
Leva-me além daquele erguido monte,
Que lá campeia quase que sumido
Nas brumas do horizonte.

Leva-me além; - oh! muito além ainda;
Do eterno plaino largo campo fende;
E entre escalvadas serranias broncas
O carro teu suspende.
Aí nas abas de sombrio morro
Abate o vôo, e deixa-me nos braços
Daquela por quem morro.

Bernardo Guimarães


Ao meu aniversário (15 de Agosto) - Bernardo Guimarães

Ao meu aniversário (15 de Agosto)

Eis-te de novo às portas do Oriente,
Fatal dia de agosto,
Que cada vez mais feio e mais tristonho
Vais me mostrando o rosto.

Já me achas mais velho, e mais disposto
A debicar contigo,
Do que a te saudar com aqueles hinos
De meu bom tempo antigo.

Por que razão tão cedo cá vieste
De novo aparecer-me?
Não sabes que o teu rosto já tão visto
Só pode aborrecer-me?

Que me trazes de mimo? - mais um ano,
Mais uma ruga à fronte,
E a campa, que lá surge mais distinta
Nas brumas do horizonte!

Que tens de me contar de interessante?
Que um ano mais de idade
Conto além de outros muitos que me deste?!
Oh! grande novidade!

Já lá vão lustros seis, e mais dous anos,
Que encontras-me na vida,
Cada vez mais moído e atrapalhado
Nesta enfadonha lida!

Até quando pretendes oprimir-me
Com o tremendo fardo
De anos e anos, com que os ombros vergas
Do teu infeliz bardo?

Anos, - e nada mais - eis o que trazes
A quem viste nascer:
E queres que com brindes te festeje,
Com hinos de prazer?

Ai! que nem tardo a ver-te do Oriente
Nas púrpuras louçãs,
Trazendo-me de envolta as senis rugas,
E um punhado de cãs.

Depois - virás ainda derramando
Dos raios teus o brilho,
E na face da terra entre os viventes
Não mais verás teu filho!

Mas... que te importará mais essa gota
Que se secou nos mares?
Mais essa folha que caiu da coma
Das selvas seculares?

Passarás, - e teus ledos esplendores
Virão pousar risonhos
No leito em que eu estiver dormindo o eterno
Sono que não tem sonhos.

E nem palpitará aos teus sorrisos
Mirrado o coração,
E nem se aquecerão meus frios ossos
Na gélida mansão.

Estou certo que quando sobre a terra
Achares-me de menos,
Luto não trajarás, e nem teus raios
Serão menos serenos.

Nem pretendo que ao veres meu sepulcro
De horror voltes a cara;
Antes desejo que o inundes sempre
De luz serena e clara.

Podes sorrir, cantar sobre meu túmulo,
Que não darei cavaco;
Nem pode a tua luz turbar-me o sono
Lá no meu antro opaco.

Mas se acaso doer-te a inglória sorte
Do mísero poeta,
Que como sombra vá sem ser sentido
Tocou a fatal meta,

Dirás aos que algum dia procurarem
Saber quem ele fora:
"Eu vi nascer aquele que tranqüilo
"Aqui repousa agora.

"Foi um desses que passam sobre a terra
"Em êxtases profundos,
"Escutando as canções que a seus ouvidos
"Ecoavam de outros mundos.

"Agitava-lhe a alma de contínuo
"Um surdo furacão;
"Tinha no seio o fel das amarguras,
"No cérebro um vulcão.

"Andava só; - espessa cabeleira
"Como nuvem sombria,
"Negra, em desordem flutuando ao vento,
"A fronte lhe cobria.

"E no vago do olhar turvado e triste
"Uma alma ressumbrava,
"Que um pego de amargura e desalento
"No seio concentrava.

"Cansado de vagar por este mundo
"Sonhando um paraíso,
"De atroz sarcasmo às vezes pelos lábios
"Lhe doudejava um riso.

"Longo tempo, em vãos sonhos embalado
"Viveu só de esperanças;
"Mas depois... só nutria o pensamento
"Do fel de agras lembranças.

"Não foi o fado que o tornou tão triste;
"A própria natureza
"Já desde o berço lhe entornara n'alma
"O gérmen da tristeza.

"E nos lábios dos outros muitas vezes
"Risos brotar fazia
"De prazer jovial, que dentro d'alma
"O triste não sentia.

"Morreu, coitado! - este sepulcro humilde
"Lhe serve de jazida;
"Dai-lhe agora na morte, oh! dai-lhe as flores
"Que não colheu na vida."

E esta?! - comecei sobre este assunto
Um canto joco-sério:
Eis senão quando vejo-me envolvido
No pó do cemitério!...

És tu, dia fatal, és tu culpado
Deste funéreo sonho,
Que já por morto, e hóspede me dava
Do túmulo medonho.

É tu que assim me trazes à lembrança
Um triste cenotáfio,
E na campa me pões, lavrando eu mesmo
O meu próprio epitáfio!

Se lembravas-me outrora a luz primeira,
Sorrindo-me ao nascer,
Hoje lembras-me só que se avizinha
O tempo de morrer.

Vai-te, ó dia importuno - vai-te azinha
Ó tu, que em meu costado
Inda mais um janeiro sem remédio
Deixaste-me pregado

Vai-te depressa, - mas em tua volta
Não venhas a correr,
Pois quanto a mim, nenhuma pressa tenho
De cá tornar-te a ver.
E para que não veja-te na vida
Raiando tantas vezes,
De hoje em diante comporei meus anos
De vinte e quatro meses.

Vai-te, ó dia importuno - vai-te azinha,
Ó tu, que em meu costado
Inda mais um janeiro sem remédio
Deixaste-me pregado.
Vai-te depressa, - mas em tua volta
Não venhas a correr,
Pois quanto a mim, nenhuma pressa tenho
De cá tornar-te a ver.

E para que não veja-te na vida
Raiando tantas vezes,
De hoje em diante comporei meus anos
De vinte e quatro meses.

Bernardo Guimarães

Flor sem nome - Bernardo Guimarães

Flor sem nome

Ela nasceu no ermo em um rochedo
Sobre a fauce do abismo pendurado.
A flor sem nome, alardeando o viço
E a linda cor do cálix orvalhado.

O sol, quando surgiu, veio afagá-la
Com todo o amor dos brandos raios seus;
Mas ao deixar o céu em vão buscou-a
Para dizer-lhe adeus.

Tépidos beijos lhe imprimiu no seio
A brisa da manhã,
Voltou logo depois; passou gemendo,
Pois não viu mais no vale a flor louçã.

O colibri no seu mimoso cálix
Esvoaçando doce humor libou;
Veio depois inda outra vez beijá-la,
Não a viu mais, e triste se afastou.

Etérea flor no lodo vil do mundo
Jamais teve raiz,
E nem o pó da terra enxovalhou-lhe
O virginal matiz.

A perfumada viração da aurora
Em sossegado adejo
Embalou-a no límpido ambiente
Com brando rumorejo.

E ela agitando as pétalas mimosas
Ao sopro afagador da mansa aragem,
Sorrindo para o céu não viu do abismo
A tétrica voragem.

E todos, os que a viram, de encantados
- Que linda flor! clamaram;
Mas ninguém a colheu; nas mansas asas
As virações celestes a levaram.

Alma tenra e gentil, assim te foste
Levando intacto da inocência o véu;
Brisa fagueira te levou nas asas
Para os jardins do céu.

Eras de um mundo mais feliz que o nosso;
Vicejar sobre a terra não pudeste;
E com os anjos, teus irmãos, te foste
Para a mansão celeste.

E belo assim murchar inda na aurora,
Sem crestar-se do sol ao vivo ardor,
E uma alma imaculada como o lírio
Nas mãos de Deus depor.

Bernardo Guimarães

Bernardo Guimarães - A uma estrela

A uma estrela

Poesia oferecida a meu amigo
o Sr. A. G. G. V. C.

Salve, estrelta solitária,
Que brilhas sobre esse monte,
Tímida luz maviosa
Derramando no horizonte.

Eu amo teu manso brilho
Quando lânguido se esbate,
Pelos campos cintilando,
De relva em úmido esmalte;

Quando trêmula argenteias
Um lago límpido e quedo,
Quando infiltras meigos raios
Pelas ramas do arvoredo.

Pálida filha da noite,
Sempre és pura e maviosa;
Fulge-te o rosto formoso
Qual branca orvalhada rosa.

Eu amo teu manso brilho,
Que como olhar amoroso,
Vigilante à noite se abre
Sobre o mundo silencioso,

Ou como um beijo de paz,
Que o céu sobre a terra envia,
Na face dela espargindo
Silêncio e melancolia.

Salve, ó flor do etéreo campo,
Astro de meigo palor!
Tu serás, formosa estrela,
O fanal do meu amor.

Neste mundo, que alumias
Com teu pálido clarão,
Existe um anjo adorável
Digno de melhor mansão.

Muitas vezes a verás
Sozinha e triste a pensar,
E seus lânguidos olhares
Com teus raios se cruzar.

Nas faces a natureza
Lhe esparziu leve rubor,
Mas a fronte lisa e calma
Tem dos lírios o palor.

Mais que o ébano brunido
Lhe fulge a madeixa esparsa,
E cos anéis lhe sombreia
O níveo colo de garça.

Nos lábios de carmim vivo,
Rara vez paira um sorriso;
Não pode sorrir na terra,
Quem pertence ao paraíso.

Seus olhos negros, tão puros
Como o teu puro fulgor,
São fontes, onde minh'alma
Vai abrevar-se de amor.

Se a este mundo odioso,
Onde me langue a existência,
Me fosse dado roubar
Aquele anjo de inocência;

E nesses orbes que giram
Pelo espaço luminoso,
Pra nosso amor escolher
Um asilo mais ditoso...

Se eu pudesse a ti voar,
Astro de meigo palor,
E com ela em ti viver
Eterna vida de amor...

Se eu pudesse... Oh! vão desejo,
Que me embebe em mil delírios,
Quando assim de noite cismo
À luz dos celestes círios!

Porém ao menos um voto
Vou fazer-te, ó bela estrela,
À minha súplica atende,
Não é por mim, é por ela;

Tu, que és o astro mais belo
Que gira no azul do céu,
Sê seu horóscopo amigo,
Preside ao destino seu.

Leva-a sobre o mar da vida
Embalada em sonho ameno,
Como um cisne, que desliza
À flor de um lago sereno.

Se diante dos altares
Curvar os joelhos seus,
Dirige-lhe a prece ardente
Direito ao trono de Deus.

Se solitária cismar,
No mais brando raio teu
Manda-lhe um beijo de amor;
E puros sonhos do céu.

Veja sempre no horizonte
Tua luz serena e mansa,
Como um sorriso do céu,
Como um fanal de esperança.

Porém se o anjo celeste
Sua origem deslembrar,
E no lodo vil do mundo
As níveas asas manchar;

Ai! se louca profanando
De um puro amor a lembrança,
Em suas mãos sem piedade
Esmagar minha esperança,

Então, estrela formosa,
Cubra-te o rosto um bulcão
E sepulta-te para sempre
Em perpétua escuridão!

Bernardo Guimarães


Bernardo Guimarães - À morte da inocente Maria

À morte da inocente Maria

Filha de meu amigo Pedro Queiroga

Como gota de orvalho, que na aurora,
Brilhando um só momento,
Do cálix da bonina se evapora,
E se perde no azul do firmamento,

Ao maternal regaço assim fugiste,
Mimosa criatura,
A todos nós deixando, em hora triste,
Cheios de dó, transidos de amargura.

Eras anjo, bem sei; o vôo alçaste
Para o trono de Deus;
Mas em saudade infinda cá deixaste
Os que não gozam mais sorrisos teus.

Maria, pede a Deus, que das alturas,
Pra onde tu voaste,
Envie refrigério às amarguras
Daqueles que tão cedo abandonaste.

Bernardo Guimarães

Ilusão - Bernardo Guimarães

Ilusão

Vê, que painel formoso a tarde borda
Na brilhante alcatifa do ocidente!

As nuvens em fantásticos relevos
Aos olhos fingem, que inda além da terra
Novo horizonte infindo se prolonga,
Onde lindas paisagens se desenham
Descomunais, perdendo-se no vago
De vaporosos longes
Lagos banhados de reflexos d'ouro,
Onde se espelham gigantescas fábricas;
Solitárias encostas, onde avultam
Aqui e além ruínas pitorescas,
Agrestes brenhas, serranias broncas,
Pendentes alcantis, agudos píncaros,
Fendendo um lindo céu de azul e rosas;
Fontes, cascatas, deleitosos parques,
Encantadas cidades quais só pode
Criar condão de fadas,
Surdem do vale, entre vapor brilhante,
Com a fronte coroada de mil torres,
De esguios coruchéus, de vastas cúpulas;
E além ainda mil aéreas formas,
Mil vagas perspectivas se debuxam,
Que por longes sem fim se vão perdendo!
Todo enlevado na ilusão donosa
Longo tempo meus olhos espaireço
Porém do céu as cores já desbotam,
Os fulgores se extinguem, se esvaecem
As fantásticas formas vem de manso
A noite desdobrando o véu das sombras
Sobre o aéreo painel maravilhoso;
Apenas pelas orlas do horizonte
Bruxuleia através da escuridade
O crespo dorso dos opacos montes,
E sobre eles fulgindo merencória,
Suspensa, como pálida lucerna,
A solitária estrela do crepúsculo.

Assim vos apagais em sombra escura,
Ledas visões da quadra dos amores!...
Lá vem na vida um tempo
Em que a um sopro gélido se extingue
A fantasia ardente,
Esse sol puro da manhã dos anos,
Que doura-nos as nuvens da existência,
E mostra além, pelo porvir brilhando,
Um céu formoso e rico de esperança;
E esses puros bens, que a mente ilusa
Cismara em tanto amor, tanto mistério,
Lá vão sumir-se um dia
Nas tristes sombras da realidade;
E de tudo que foi, conosco fica,
No fim dos tempos, a saudade apenas,
Triste fanal, brilhando entre ruínas!

Bernardo Guimarães